Um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp, em Botucatu (SP), aponta que técnicas menos invasivas podem remover completamente o câncer de mama em uma proporção significativa de pacientes. A pesquisa, baseada na dissertação de mestrado da mastologista Paula Clarke, foi idealizada e orientada pelos professores Eduardo Carvalho Pessoa e Henrique Lima Couto, do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da universidade. Os resultados foram publicados na revista científica Annals of Surgical Oncology, periódico oficial da Sociedade Americana de Cirurgia Oncológica e da Sociedade Americana de Cirurgiões de Mama.
O trabalho avaliou 120 casos nos quais foram combinadas duas abordagens: a biópsia a vácuo estendida e o shaving, procedimento que coleta fragmentos das margens da cavidade tumoral. Em 37,5% dos casos, não foi encontrado tumor residual na cirurgia posterior. Em outros 15%, detectou-se apenas doença residual mínima, com tumores menores que três milímetros. “Ou seja, a estratégia conseguiu remover completamente o câncer em um a cada três casos”, ressaltou a mastologista Paula Clarke.
Como funciona a biópsia a vácuo estendida
A biópsia a vácuo é um método que utiliza uma agulha acoplada a um sistema de sucção para retirar amostras de tecido mamário. Na versão estendida, o procedimento é ampliado para remover uma quantidade maior de tecido ao redor do tumor, buscando margens livres de doença. O shaving, por sua vez, consiste na raspagem das paredes da cavidade deixada pela retirada do nódulo, permitindo analisar se restaram células cancerígenas.
Segundo os pesquisadores, a combinação das duas técnicas oferece uma alternativa potencial à cirurgia tradicional para casos selecionados. Dos 120 procedimentos analisados, 119 foram realizados por mastologistas, o que reforça a necessidade de capacitação especializada para a execução segura do método. A fonte não detalhou os critérios exatos de seleção das pacientes, mas os resultados sugerem que a abordagem pode ser considerada em situações específicas.
Resultados promissores e doença residual mínima
Os dados mostram que mais da metade das pacientes (52,5%) apresentou algum grau de doença residual após o procedimento minimamente invasivo. Contudo, em 15% dos casos, essa doença residual foi classificada como mínima, com lesões menores que três milímetros. Esse achado é relevante porque tumores tão pequenos podem ter comportamento clínico distinto e, em alguns contextos, não exigir intervenção cirúrgica imediata.
Paula Clarke destacou que a análise multivariada trouxe informações adicionais sobre o carcinoma in situ, um tipo de câncer de mama não invasivo. “Constatamos, por exemplo, que quanto maior o carcinoma in situ, maiores as chances de doença residual”, afirmou. A médica acrescentou que o volume de doença no shaving se correlacionou com a chance de falso negativo, de doença residual ou de upgrade — termo usado quando uma lesão inicialmente considerada in situ se revela invasiva após análise mais aprofundada.
Perspectivas para o tratamento do câncer de mama
A publicação na Annals of Surgical Oncology confere respaldo internacional à pesquisa brasileira. A revista é uma das mais conceituadas na área de cirurgia oncológica, o que pode acelerar a adoção das técnicas em outros centros. Os autores ressaltam, porém, que os resultados precisam ser validados em estudos maiores e com acompanhamento de longo prazo antes de se tornarem prática clínica rotineira.
De acordo com Henrique Lima Couto, novas comprovações estão em andamento. Um segundo estudo, denominado VAE Breast 02, testa a abordagem em pacientes com câncer de mama após quimioterapia neoadjuvante — tratamento realizado antes da cirurgia para reduzir o tumor. Essa pesquisa conta com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia e integra o mestrado de Katyane Larissa Alves, na Universidade Federal de Goiás (UFG). A expectativa é que os novos dados ampliem o entendimento sobre quais pacientes podem se beneficiar da remoção percutânea do tumor.
Implicações para a prática clínica
Embora os resultados sejam encorajadores, especialistas alertam que a biópsia a vácuo estendida não substitui a cirurgia em todos os casos. A decisão sobre o tratamento deve ser individualizada, considerando o tipo de tumor, o tamanho, a localização e as preferências da paciente. A técnica pode ser especialmente útil para mulheres com tumores pequenos, bem delimitados e sem evidência de disseminação linfática.
Outro ponto relevante é o impacto na qualidade de vida. Procedimentos menos invasivos tendem a causar menos dor, menor tempo de recuperação e melhores resultados estéticos, o que pode reduzir o impacto psicológico do diagnóstico. No entanto, a fonte não detalhou esses desfechos no estudo publicado, limitando-se aos dados de eficácia oncológica.
Próximos passos da pesquisa
A equipe da Unesp planeja dar continuidade às investigações, incluindo análises de custo-efetividade e estudos multicêntricos. A colaboração com a Sociedade Brasileira de Mastologia e com a UFG indica um esforço nacional para consolidar a técnica. Se os resultados do VAE Breast 02 confirmarem a segurança e a eficácia em pacientes pós-quimioterapia, o método poderá ser incorporado aos protocolos de tratamento com maior confiança.
Enquanto isso, a comunidade médica acompanha com interesse os desdobramentos. A possibilidade de remover completamente um câncer de mama sem cirurgia aberta representa uma mudança de paradigma, mas exige cautela. Como em toda inovação, a validação científica rigorosa é essencial para garantir que os benefícios superem os riscos.
Fonte
- medicinasa.com.br
- estudo (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
