A Ambipar vai manter sob sigilo a análise contábil de sua recuperação judicial, que reúne demonstrações financeiras, indicadores de desempenho, projeções e fluxo de caixa. Dessa forma, o material será disponibilizado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e aos credores que fizerem solicitação administrativa à administração judicial. Contudo, a restrição ocorre às vésperas da Assembleia Geral de Credores (AGC), marcada para esta segunda-feira, 25 de agosto, em formato híbrido, com participação presencial no Rio de Janeiro e opção virtual.
O acesso às informações contábeis é, portanto, um dos pontos sensíveis do processo de recuperação. Por um lado, a companhia justifica o sigilo pela necessidade de proteger dados de mercado; por outro lado, os credores afirmam que a falta de números atualizados compromete a análise do plano. A CVM, por sua vez, terá acesso direto ao material, assim como os credores que fazem pedido formal à administração judicial.
Sigilo contábil antes de assembleia
Nesse cenário, o sigilo imposto pela companhia atinge um conjunto de informações que seria essencial para a avaliação do plano de recuperação. Segundo a administração judicial, a medida busca, sobretudo, preservar informações sensíveis de uma companhia aberta, sujeita às regras do mercado de capitais. O próprio relatório, porém, reconhece que esses dados são necessários para que os credores avaliem a situação econômico-financeira do grupo e tomem uma decisão informada sobre o plano de recuperação.
Ainda assim, a administração judicial afirma que a proteção das informações não impede o acesso por parte dos credores que fizerem solicitação administrativa. Além disso, a CVM também está na lista de destinatários do material. A restrição, portanto, não é absoluta, mas exige um pedido formal.
Credores pedem adiamento da assembleia
A dificuldade de acesso a números atualizados está, sem dúvida, no centro da pressão de credores financeiros. Nesse sentido, o agente fiduciário Oliveira Trust e o banco Sumitomo pediram o adiamento da assembleia, sob o argumento de que não há visibilidade suficiente sobre os balanços recentes da companhia. Contudo, até a publicação do 10º Relatório Mensal de Atividades, divulgado em 21 de agosto, a AGC permanecia mantida.
O relatório reforça, assim, o tamanho do problema informacional enfrentado por investidores e credores. Sem uma visão clara dos balanços, os credores se veem sem condições de avaliar a situação financeira da empresa. O pedido de adiamento, no entanto, não havia prosperado até a data de divulgação do relatório.
Atraso em balanços aumenta desconfiança
Com efeito, a Ambipar está atrasada na divulgação de dados financeiros obrigatórios: o último ITR — formulário trimestral entregue à CVM — tem como data-base junho de 2025. Além disso, as demonstrações anuais de 2025 e os resultados trimestrais de 2026 foram adiados mais de uma vez. Nesse ínterim, em 14 de agosto, a empresa informou novo atraso e não indicou uma nova data para a divulgação.
Essa defasagem compromete diretamente a análise de indicadores de desempenho e fluxo de caixa, itens centrais em um processo de recuperação. Os credores, portanto, seguem sem acesso a dados que permitam avaliar a capacidade de pagamento da companhia. Além disso, a falta de uma nova data aumenta a incerteza sobre quando as informações serão regularizadas.
Auditoria independente ainda indefinida
Sobretudo, a situação é agravada pela ausência de auditor independente para a holding. Nesse contexto, a Deloitte deixou de atuar como auditora da Ambipar, enquanto as demais empresas em recuperação são auditadas pela BDO. Ademais, segundo a administração judicial, a controladora está em processo de substituição da auditoria, sem definição sobre quem revisará as demonstrações financeiras de 2025 e os relatórios trimestrais pendentes.
A indefinição sobre o auditor reforça, portanto, as dúvidas dos credores em relação à confiabilidade das demonstrações financeiras. Com efeito, sem a revisão de um auditor independente, os números apresentados pela empresa não passam por uma verificação externa. Esse é mais um fator que contribui para o clima de desconfiança em torno do processo.
Ambipar contesta falência na Justiça
Em outra frente, a Ambipar contesta na Justiça do Rio de Janeiro o pedido de falência apresentado pela Addiante, locadora de caminhões, por uma dívida extraconcursal de R$ 187,7 milhões. Nesse contexto, a companhia questiona a cobrança e sustenta haver controvérsias sobre o contrato, que previa pagamentos entre novembro de 2025 e junho de 2026.
Segundo o relatório da administração judicial, a Ambipar também ajuizou ação revisional e pediu a suspensão do processo de falência até o julgamento do caso. Dessa forma, a empresa tenta evitar a quebra enquanto o processo de recuperação judicial tramita. A disputa com a Addiante, por sua vez, se soma aos demais desafios da companhia.
Recuperação nos EUA segue em paralelo
No exterior, a Ambipar Emergency Response segue em processo de Chapter 11 nos Estados Unidos. Por outro lado, a administração judicial registra que não há comunicação formal, no processo brasileiro, sobre um pedido de reconhecimento recíproco entre os dois procedimentos, como um Chapter 15 nos EUA.
A ausência de coordenação entre os processos pode trazer complicações para a recuperação do grupo como um todo. Enquanto isso, no Brasil, a assembleia de credores continua marcada para a segunda-feira. Ademais, o 10º Relatório Mensal de Atividades, divulgado em 21 de agosto, segue como a principal fonte de informações sobre o andamento do processo.
Fonte
- investnews.com.br
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