Dimas Covas e Sinovac: fábrica de vacinas no Brasil
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Após enfrentar a Covid-19 de perto, Dimas Covas tem um novo objetivo: trazer ao Brasil uma fábrica de vacinas da Sinovac. A meta, porém, envolve superar uma série de obstáculos que vão da infraestrutura à formação de pessoal. Segundo Covas, a saúde brasileira segue dependente de insumos vindos do exterior, principalmente da Ásia, e o país não possui nenhuma vacina própria contra o coronavírus.

Dependência externa e falta de estrutura

A vulnerabilidade do país ficou evidente durante a pandemia. Covas afirmou que o Brasil ainda não possui uma indústria consolidada na área de vacinas, capaz de responder rapidamente a uma nova emergência sanitária. Na avaliação dele, o problema não é necessariamente falta de recursos, mas sim ausência de infraestrutura e de mão de obra especializada para absorver novas tecnologias.

Essa combinação de carências torna o país pouco preparado para receber a planta proposta pela Sinovac. A dependência externa, além disso, tende a aumentar à medida que a tecnologia se desenvolve e fica mais complexa, criando um ciclo de vulnerabilidade que exige ações estruturadas. Sem uma estratégia clara, o país continuará refém de decisões externas.

Preparo e formação para novos investimentos

Covas defende que é preciso formar gente capaz de atuar na área, incluindo engenheiros técnicos em construções de indústrias farmacêuticas avançadas. Para ele, o país precisa se preparar para receber esses investimentos, o que envolve capacitação e infraestrutura. “A Sinovac não vai construir uma indústria no Brasil e trazer chineses para trabalhar”, afirmou, destacando que o processo demanda disposição na formação de pessoas.

Sem esse preparo, o Brasil corre o risco de permanecer refém de tecnologias externas. A pandemia, nesse sentido, foi uma catástrofe que, quando controlada, teve sua preocupação sumindo das prioridades políticas, dificultando avanços de longo prazo. Essa memória curta, no entanto, não apaga a necessidade de investimentos contínuos.

Parceria com Tecpar e gargalos restantes

Um passo já foi dado pela Sinovac no país. A companhia mantém uma parceria com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) para transferência de tecnologia e produção nacional de vacinas contra varicela e raiva humana, com prazo máximo de 10 anos.

  • Vacina contra varicela: hoje importada, já está disponível no SUS;
  • Vacina contra raiva humana: deve entrar no mercado em 2027.

No entanto, ainda há grandes gargalos por parte da instituição, segundo Covas. Ele não detalhou quais seriam, mas a fala indica que a estrutura atual precisará de reforços para dar conta da demanda. A transferência de tecnologia é um processo complexo.

Antivacinas e desinformação

Para Covas, a luta contra a desinformação é tão importante quanto a produção de vacinas. O movimento antivacinas, fortalecido durante a pandemia, permanece como um dos grandes desafios da saúde pública e deixou marcas na política nacional de imunização. Ele afirmou que as pessoas não estão dando mais importância à vacinação de seus filhos, em um cenário de anticientificismo.

“A maior luta da humanidade é a ignorância contra a sabedoria”, disse.

Essa batalha, na visão dele, precisa ser enfrentada com políticas públicas contínuas e educação da população. Sem isso, os avanços na produção podem ser desperdiçados.

Inovação e recursos financeiros em xeque

O problema da inovação também se reflete em números. O Brasil é o 13º do mundo em produção de artigos acadêmicos, mas em inovação ocupa a 52ª posição. Covas afirmou que isso não é uma questão de recursos: há três anos, o descontingenciamento do FNDCT colocou cerca de R$ 30 bilhões em circulação. Mesmo assim, os instrumentos de política usados não têm sido suficientes para encurtar a distância.

No setor de saúde, as consequências aparecem nos preços. Muitos produtos têm valores proibitivos e acabam restritos a quem pode pagar ou possui plano de saúde, deixando a população mais vulnerável à margem. Isso amplia as desigualdades no acesso a tratamentos.

O caminho para uma fábrica no Brasil

Apesar dos desafios, a presença da Sinovac no país já tem história. O Brasil usou a vacina da hepatite A e a Coronavac, que marcou a chegada da empresa ao mercado brasileiro. Uma fábrica local, porém, representaria um salto em autonomia, mas depende de fatores como infraestrutura, mão de obra e combate à desinformação.

Covas segue empenhado no projeto, consciente de que será um esforço de longo prazo. Enquanto isso, a parceria com o Tecpar e os investimentos em capacitação podem pavimentar o caminho para que a próxima pandemia, se vier, encontre o Brasil mais preparado. A decisão, no entanto, exigirá esforço contínuo e vontade política.

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