O Japão marca neste domingo o aniversário do bombardeio atômico de Nagasaki, em um momento de forte debate interno sobre a política de defesa. O governo da primeira-ministra Sanae Takaichi procura relançar a discussão sobre armas nucleares, desafiando a posição pacifista que marcou o país desde 1945. Sobreviventes e defensores do pacifismo observam o movimento com apreensão.
81 anos dos bombardeios atômicos
Na quinta-feira, o Japão marcou o 81.º aniversário do bombardeio de Hiroshima. No domingo, será a vez de Nagasaki, que também foi alvo da bomba atômica em 9 de agosto de 1945. Os ataques executados pelos Estados Unidos mataram mais de 210 mil pessoas. Até hoje, é a única vez em que armas atômicas foram utilizadas em combate.
Os sobreviventes, conhecidos como hibakusha, receberam o Prêmio Nobel da Paz de 2024. No entanto, eles estão cada vez mais velhos: em março, o governo reconhecia pouco mais de 91 mil sobreviventes, contra mais de 164 mil uma década atrás. A idade média atual é de 86,7 anos. Esses números mostram como a memória dos ataques está prestes a se perder, em meio ao novo debate sobre armas nucleares.
Pacifismo sob pressão
A Constituição japonesa renuncia ao uso de força militar ofensiva, e o país adotou, desde 1967, os três princípios não nucleares:
- Não possuir armas nucleares;
- Não produzi-las;
- Não permitir a introdução de armas nucleares em seu território.
Esse compromisso é a espinha dorsal do pacifismo japonês no pós-guerra. No entanto, ele está sendo desafiado por uma nova realidade regional.
Vizinhos do Leste Asiático, particularmente a China, vêm reforçando suas capacidades militares. Além disso, persistem dúvidas sobre a confiabilidade dos Estados Unidos como garante de segurança do Japão. Essas pressões estão por trás do recrudescimento do debate sobre armas nucleares no país.
Sinais contraditórios do governo
A primeira-ministra Sanae Takaichi recusou esclarecer se pretende manter os três princípios não nucleares. O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, por sua vez, apelou a uma “discussão sem tabus” sobre o tema. As declarações ocorrem em meio a um amplo debate sobre a segurança do país.
Em dezembro, um alto responsável da administração, que não foi identificado, disse, em off, que o Japão deveria possuir armas nucleares. A declaração foi amplamente noticiada pela NHK e pelo Asahi Shimbun, além de outros órgãos, e desencadeou críticas públicas. A repercussão negativa, no entanto, não interrompeu as discussões internas sobre o tema, o que aumenta a inquietação entre os que testemunharam os ataques.
Inquietação dos sobreviventes
As políticas defendidas por Takaichi têm inquietado os sobreviventes dos bombardeios de 1945. Satoshi Tanaka, de 82 anos, sobrevivente do ataque a Hiroshima, disse que “não pode deixar de pensar” que talvez a primeira-ministra queira mudar a posição do país. Ele não é o único a manifestar preocupação com o rumo das decisões do governo.
O receio é que o Japão abandone o caminho pacifista em favor de uma política de rearmamento. Por enquanto, o governo não deu sinais claros sobre qual será o destino dos princípios não nucleares. A expectativa é que o aniversário de Nagasaki sirva de alerta para a necessidade de preservar o compromisso de 1967, enquanto o governo define os rumos dessa política.
Nova política de defesa
O governo de Takaichi está realizando, este ano, uma atualização profunda da estratégia nacional de defesa. A chefe de governo já levantou a proibição autoimposta de exportar armas e aumentou a despesa em defesa. Ela também busca alterar a Constituição, o que exigiria amplo apoio parlamentar e popular.
A China, por sua vez, acusa o Japão de “novo militarismo” e diz que Takaichi cede aos desígnios da extrema-direita. O tom das críticas reflete o aumento da tensão regional. Nesse cenário, o debate sobre princípios nucleares permanece aceso.
O futuro dos princípios nucleares
Apoiadores de Takaichi defendem que a última cláusula dos princípios não nucleares seja alterada. A ideia é permitir que os Estados Unidos possam levar armas nucleares para o Japão, em uma espécie de compartilhamento nuclear. No entanto, isso enfrenta resistência mesmo dentro da base aliada.
Hirofumi Yoshimura, líder do Partido da Inovação do Japão, parceiro de coalizão, afirmou que o princípio merece ser discutido. O contexto seria a aliança de segurança entre Estados Unidos e Japão. Ele ressaltou, porém, que se deve continuar a respeitar o princípio de não possuir nem produzir armas nucleares.
Assim, o aniversário de Nagasaki ocorre em meio a um debate que opõe a memória dos ataques à nova realidade geopolítica da região. Para os defensores do pacifismo, o risco é que o Japão se afaste do caminho adotado após a guerra. O desfecho desse debate ainda é incerto, mas as escolhas feitas agora serão observadas de perto pela comunidade internacional.
