A cirurgia ambulatorial é apontada como uma das mais poderosas alavancas de eficiência, qualidade assistencial e sustentabilidade no sistema de saúde. O argumento está maduro, a evidência internacional é robusta, o caso econômico é incontestável e a experiência do paciente fala por si. Construímos, coletivamente, o consenso de que a desospitalização do ato cirúrgico eletivo não é uma ousadia, e sim uma inevitabilidade.

O abismo não é de tecnologia

O Brasil não tem um problema de convencimento sobre cirurgia ambulatorial. Tem um problema de capacidade operacional e execução. A distância entre os menos de 30% que praticamos e os mais de 80% das nações de referência não é, em sua maior parte, um abismo de tecnologia ou de talento médico. É um abismo de desenho operacional.

Continuamos a tratar a Unidade de Cirurgia Ambulatorial (UCA) como uma versão reduzida do hospital geral, quando ela é, na verdade, um modelo assistencial distinto, com lógica própria de governança, fluxo e gestão de risco. Essa confusão conceitual cobra um preço alto. Importamos para o ambiente ambulatorial as ineficiências, o overhead e a cultura de internação do hospital tradicional, e depois nos surpreendemos quando o ganho prometido não se materializa. O resultado é uma profusão de estruturas que se autodenominam ambulatoriais, mas que operam com a mentalidade, os custos e os tempos do modelo que se propunham a superar.

Quatro componentes inseparáveis

Destravar a cirurgia ambulatorial no Brasil exige que paremos de repetir por quais razões ela importa e comecemos a detalhar como ela se constrói. O roteiro operacional se organiza em quatro componentes inseparáveis.

1. Definição clara do escopo

A maturidade de uma unidade ambulatorial se mede menos pelo que ela é capaz de operar e mais pela clareza com que define o que não deve ser operado ali.

2. Adoção integral de protocolos como o ERAS

Jejum abreviado, analgesia multimodal poupadora de opioides, controle ativo de náusea, mobilização precoce e alta planejada desde a admissão deixam de ser iniciativas avulsas e passam a constituir o próprio fluxo da unidade. O ERAS é o que torna a alta no mesmo dia não um ato de coragem, mas a consequência natural de um processo desenhado para isso. Adotá-lo pela metade, como ornamento sobre um fluxo hospitalar tradicional, é a forma mais comum de fracassar tentando acertar.

3. Gestão da jornada completa do paciente

A excelência ambulatorial se decide tanto fora da sala cirúrgica quanto dentro dela. As unidades que efetivamente entregam segurança e eficiência são aquelas que dominam as três fases da jornada com igual rigor: pré-operatório, intraoperatório e pós-operatório imediato.

4. Liderança do gestor

Porque execução exige uma figura que raramente colocamos no centro do debate: o gestor. Discutimos exaustivamente o cirurgião, o anestesista e o paciente, mas a transformação ambulatorial é, antes de tudo, um desafio de gestão.

Benefícios para todo o sistema

O valor desse roteiro se distribui por todo o sistema. Para o paciente, significa um cuidado mais seguro, mais humano e centrado na recuperação em casa. A fonte não detalhou os demais benefícios, mas a lógica aponta para ganhos de eficiência e sustentabilidade para o sistema de saúde como um todo.

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