Mais do que apresentar soluções e tendências, discutir os desafios que estão no centro das decisões da saúde. Essa foi a proposta do SB.com Entrevista, novo formato de conteúdo apresentado durante o Healthcare Innovation Show 2026. O espaço reuniu executivos de diferentes segmentos para debater temas como modelos de remuneração, uso de dados, incorporação de tecnologia e organização do acesso à saúde.
Remuneração baseada em indicadores
O executivo defendeu que os modelos de remuneração avancem para além do pagamento por serviço e incorporem indicadores capazes de medir resultados. “O sistema de saúde é ter modelos de remuneração que de fato sejam baseados em indicadores”, definiu. O desafio, para Casarotti, passa por encontrar equilíbrio entre acesso, qualidade e sustentabilidade, especialmente diante de uma população que vive mais e demanda cuidados por períodos mais longos.
Na avaliação do executivo, grandes volumes de dados podem ser utilizados justamente para tornar o cuidado mais individualizado, ao permitir uma visão mais longitudinal do paciente e apoiar decisões sobre prevenção, navegação e acesso. “Quanto maior a minha escala, o trabalho de tratar esse dado e olhar o paciente prospectivamente, melhor e mais individualizado consigo dar acesso para o paciente”, explicou Adib. A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta de eficiência e passa a fazer parte da estratégia de transformação das operadoras.
Dados e IA para prevenção
Dados e inteligência artificial podem contribuir para uma atuação menos reativa e mais preventiva, enquanto diferentes modelos de integração entre operadoras e prestadores podem ser utilizados de acordo com as características de cada mercado. A discussão sobre remuneração e uso de dados abre caminho para repensar a relação entre os agentes do setor.
Incorporação de inovação farmacêutica
A velocidade da inovação na indústria farmacêutica contrasta com a dificuldade de incorporar novas tecnologias em escala. Para Lorice Scalise, CEO da Roche Farma Brasil, esse descompasso passa por problemas estruturais de gestão, dados e interoperabilidade. “Nós estamos tentando solucionar problemas do dia de hoje com ferramentas de um século atrás”, destacou.
A questão, portanto, não termina no desenvolvimento de novas terapias. É preciso criar condições para que elas cheguem ao sistema e produzam resultados. Scalise também defendeu a revisão dos modelos de remuneração e dos incentivos associados à inovação, aproximando o pagamento dos desfechos produzidos pelo cuidado. “O que você compra não é uma caixinha de um remédio. (…) O que você deseja é o desfecho daquela medicação”, pontuou.
A discussão sobre compartilhamento de risco aparece, assim, como parte de uma questão maior para o setor: como financiar e incorporar inovação em um sistema que precisa, ao mesmo tempo, ampliar acesso e controlar custos? A resposta ainda está em construção, mas os executivos apontam caminhos.
Organização do acesso à saúde
A entrevista com Massanori Shibata Jr., CEO do dr. Consulta, trouxe uma perspectiva diferente sobre acesso ao explorar a relação entre preço, tempo, experiência e comportamento do consumidor. Mas a discussão foi além da experiência do consumidor. Para Shibata, existe uma camada intermediária do sistema capaz de organizar informações e serviços para um público que transita entre diferentes modelos de acesso.
A tese parte de um diagnóstico sobre o consumo de saúde no país: milhões de brasileiros já recorrem a diferentes formas de atendimento e pagamento, mas de maneira fragmentada. “Você tem 100 milhões de brasileiros que estão gastando mais de R$ 200, 300 bilhões em saúde de forma desorganizada. É aqui que a gente quer ajudar e operar”, ressaltou.
Entre as iniciativas citadas está a construção de uma health wallet, que busca reunir informações e histórico de saúde e dar ao usuário maior controle sobre os próprios dados. A proposta é que essas informações possam acompanhar o paciente independentemente de onde ele busque atendimento. A provocação colocada por Shibata extrapola o modelo de negócio do dr. Consulta: como organizar um mercado de saúde que já é utilizado por milhões de brasileiros, mas ainda funciona de forma fragmentada?
Estratégia focada em diagnóstico
Rafael Lucchesi, CEO da Dasa, compartilhou uma decisão estratégica da companhia: concentrar o negócio em diagnóstico e reforçar a capacidade de crescimento por meio de tecnologia e inovação. A fala reforça a tendência de especialização e uso de dados como diferencial competitivo no setor.
O SB.com Entrevista, portanto, cumpriu o papel de aproximar lideranças dos desafios estruturais da saúde, oferecendo um panorama das discussões que devem pautar o setor nos próximos anos.
