O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira, em meio a uma crise bancária que se transformou em crise política. A decisão foi anunciada em pronunciamento nas redes sociais, após o próprio partido, o Colorado, passar a cobrar sua saída. O vice-presidente Pedro Allana assumirá a Presidência.
Peña cita estabilidade e instituições
“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, disse o presidente. Ele acrescentou: “A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”.
Abandonado pelo próprio partido, Peña justificou a decisão em nome da estabilidade do país e da necessidade de “preservar nossas instituições”. A renúncia ocorre em um momento de forte pressão política e social.
Câmara aprova impeachment por unanimidade
Mesmo com a renúncia, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, o processo de impeachment contra Peña. Agora, o Senado deve decidir se o processo de destituição continua ou se perde efeito em função da renúncia.
A continuidade do processo é importante porque, no Paraguai, todo ex-presidente tem direito ao cargo de senador vitalício, com direito a voz no Parlamento, mas não a voto. A exceção é para os presidentes cassados, que perdem direito ao cargo e ao foro privilegiado.
Crise financeira abala o país
A crise financeira que sacudiu o Paraguai começou na terça-feira (3) e se transformou em crise política. Na manhã de hoje, a Câmara iniciou o debate para abertura de um processo de impeachment que contava com o apoio até mesmo da legenda do mandatário, o Partido Colorado.
O terremoto político no país vizinho é consequência da liquidação do Ueno Bank, que tinha 2,9 milhões de correntistas, cerca de 60% da população adulta do país. Essas pessoas tiveram seus depósitos congelados.
Banco Central e protestos
Após a liquidação do banco, o presidente do BC paraguaio, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Ele foi dirigente do banco digital até 2023, antes de assumir a chefia do Banco Central do país.
Protestos de rua cobram que os responsáveis pela crise sejam punidos. O Ministério Público do Paraguai pediu a prisão de oito pessoas, incluindo o presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale.
Ligação de Peña com o Ueno Bank
A crise atingiu o presidente Santiago Peña porque ele foi acionista, até março de 2025, do Grupo Vázquez, que controla o banco. Eleito em 2023, Peña é um político da direita conservadora do Partido Colorado que há sete décadas controla o poder no Paraguai, exceto por cinco anos (2008-2013).
A oposição acusa o governo pelos investimentos realizados pelo Instituto de Seguridade Social (PIS), que é estatal, no Ueno Bank. O banco digital ainda administra o pagamento de pensões de milhares de aposentados e tem cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos, estimados em US$ 850 milhões.
Oposição responsabiliza Peña
A oposição responsabiliza Peña pela crise por ele ter nomeado para presidente do BC um ex-dirigente do Ueno. Ao anunciar a renúncia, o presidente pediu desculpas ao povo paraguaio.
“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai”, afirmou Peña.
Partido Colorado se afasta
O presidente do Partido Colorado e ex-presidente do país, Horácio Cartes, afirmou que a legenda não estará ao lado “do latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados”.
O presidente do Congresso paraguaio, Bachi Nunéz, dois dias antes de pedir a renúncia de Peña, avaliava à imprensa que o presidente não poderia ser responsabilizado porque o Banco Central tinha autonomia institucional.
Acusações de conflito de interesses
A oposição acusa o Partido Colorado de querer se afastar do escândalo que teria ajudado a construir. A deputada do Partido País Solidário (PPS), Johanna Ortega, destacou, durante a sessão da Câmara, que os recursos dos aposentados estavam sendo depositados em um banco próximo ao presidente Peña.
“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, afirmou.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- renunciou ao cargo (www.bcp.gov.py)
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Repórter Brasil de 5 de novembro de 2026; assista na íntegra (tvbrasil.ebc.com.br)
