Mamografia no SUS: 70% das mulheres ficam sem cobertura
Crédito: medicinasa.com.br
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Todos os anos, o Brasil se veste de rosa para falar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Mas existe um dado que incomoda e que precisa ganhar mais espaço nessa conversa: mais de 70% das mulheres estão fora da cobertura de mamografia no Sistema Único de Saúde (SUS). A constatação, divulgada em meio às ações do Outubro Rosa, evidencia um abismo entre o discurso de conscientização e a realidade do acesso ao exame.

É um número que chama a atenção não apenas pela baixa cobertura, mas pela persistência do problema ao longo de tantos anos de campanhas de conscientização. Apesar dos esforços anuais para mobilizar a população, a proporção de mulheres sem acesso à mamografia pelo SUS permanece elevada, o que levanta questionamentos sobre a efetividade das estratégias adotadas até aqui.

Barreiras múltiplas impedem o rastreamento

Por que tantas mulheres ainda estão fora do rastreamento? O que impede que a informação sobre a importância da mamografia se transforme em cuidado? As respostas são muitas. Envolvem dificuldades de acesso aos serviços de saúde, desigualdades sociais e territoriais, obstáculos para agendar e realizar exames e também questões relacionadas à conscientização e à adesão das próprias mulheres ao rastreamento.

Em regiões periféricas e áreas rurais, por exemplo, a distância até uma unidade com mamógrafo pode ser um fator decisivo para a não realização do exame. A falta de transporte, a necessidade de faltar ao trabalho e a ausência de acolhimento nos serviços são obstáculos concretos que muitas mulheres enfrentam diariamente. Além disso, a baixa escolaridade e a desinformação sobre o câncer de mama contribuem para que o exame seja visto como algo distante ou desnecessário.

Para o Instituto Oncoguia, é preciso enfrentar todas essas barreiras. Mas existe uma que não pode continuar sendo ignorada: a falta de informação. A entidade defende que, sem conhecimento adequado sobre a importância do rastreamento, muitas mulheres deixam de procurar o serviço de saúde mesmo quando ele está disponível.

Informação é necessária, mas não suficiente

As desigualdades sociais, econômicas, raciais e territoriais interferem nas oportunidades de diagnóstico precoce. Por isso, conscientizar é fundamental, mas garantir acesso também é. Informação não resolve todas as barreiras. Mas a falta dela não pode ser mais uma.

Estudos mostram que mulheres negras e de baixa renda têm menor probabilidade de realizar mamografia na periodicidade recomendada. A interseção entre raça, classe e local de moradia cria um cenário de vulnerabilidade que exige políticas públicas específicas. Não basta apenas informar; é preciso garantir que os serviços estejam próximos, com horários flexíveis e equipes preparadas para acolher a diversidade de realidades.

Para Luciana Holtz, o Outubro Rosa precisa continuar sendo um momento de mobilização, mas também de reflexão sobre o que ainda impede as mulheres de cuidar da própria saúde. A campanha, que tradicionalmente foca na conscientização, deve evoluir para cobrar ações concretas que reduzam as barreiras de acesso e promovam equidade no rastreamento do câncer de mama.

O papel do SUS e os desafios

O SUS oferece mamografia gratuita para mulheres na faixa etária recomendada, mas a cobertura ainda está longe do ideal. A falta de equipamentos em funcionamento, a má distribuição geográfica e a demora no agendamento são problemas recorrentes. Em muitos municípios, o exame só é realizado em cidades-polo, obrigando as mulheres a percorrer longas distâncias.

Além disso, a pandemia de covid-19 agravou a situação, com a suspensão de exames eletivos e o redirecionamento de recursos. A fila de espera para mamografia cresceu em diversas regiões, e a retomada tem sido lenta. Especialistas alertam que o atraso no diagnóstico pode levar a casos mais avançados da doença, com pior prognóstico e maior custo para o sistema de saúde.

A fonte não detalhou os números absolutos de mulheres sem cobertura, mas o percentual de 70% indica que a maioria da população feminina dependente do SUS não realiza o exame na periodicidade recomendada. Esse dado é um alerta para gestores públicos e para a sociedade civil, que precisam cobrar investimentos em infraestrutura, capacitação profissional e campanhas direcionadas às populações mais vulneráveis.

Caminhos para ampliar a cobertura

Para reverter esse cenário, é necessário um esforço conjunto entre governos, profissionais de saúde e organizações da sociedade civil. A ampliação da rede de mamógrafos, a implementação de unidades móveis para áreas remotas e a simplificação do agendamento são medidas que podem aumentar o acesso. Também é fundamental investir em educação em saúde, com linguagem acessível e respeito às particularidades culturais de cada comunidade.

O Instituto Oncoguia sugere que as campanhas de conscientização sejam acompanhadas de ações práticas, como mutirões de exames, busca ativa de mulheres na faixa etária alvo e parcerias com lideranças comunitárias. A informação, quando aliada a serviços acessíveis e acolhedores, tem o potencial de transformar a realidade do rastreamento no país.

Enquanto o Outubro Rosa ilumina monumentos e distribui laços cor-de-rosa, é preciso lembrar que a cor não substitui a ação. O dado de que mais de 70% das mulheres estão fora da cobertura de mamografia no SUS deve servir como ponto de partida para um debate sério sobre as falhas do sistema e as estratégias necessárias para garantir o direito à saúde de todas as brasileiras.

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