Os gastos do governo dos Estados Unidos com juros da dívida atingiram um recorde no ano fiscal de 2026, consumindo uma parcela crescente da arrecadação federal e aumentando o risco de uma bola de neve do endividamento que pode deixar o país mais vulnerável a choques econômicos. O montante, que alcançou US$ 1 trilhão apenas em juros, acendeu alertas entre economistas e formuladores de políticas públicas.
O cenário é descrito como preocupante por especialistas, embora ainda não configure uma crise imediata. “O apocalipse fiscal ainda não chegou”, escreveu Goldberg em relatório recente. No entanto, o mesmo analista ressaltou que os riscos estão se acumulando.
Efeito de aceleração preocupa analistas
Um dos principais temores é o chamado “efeito de aceleração”. “Sempre que há um choque negativo, e os juros sobem por qualquer motivo”, pode ocorrer esse fenômeno, afirmou Goldberg. Nesse cenário, o choque de juros mais altos “alimenta o déficit, alimenta a dívida e volta a pressionar os juros na economia”, disse Swagel, diretor do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês).
Em fevereiro, o órgão que Swagel comanda projetou que a relação entre dívida e PIB atingirá um recorde em 2030, ultrapassando 106%. A trajetória ascendente da dívida em relação ao produto interno bruto é vista como um sinal de insustentabilidade fiscal no longo prazo.
O ex-integrante do Tesouro também afirmou que, embora repita há muito tempo o mesmo diagnóstico fiscal, os participantes do mercado demonstraram mais interesse pelo assunto nos últimos dois anos. Esse aumento de atenção reflete a percepção de que o problema deixou de ser teórico e passou a afetar as condições financeiras reais.
Histórico mostra que ajuste é possível
Nem sempre a situação foi tão grave. O fim da Guerra Fria também levou a uma queda nos gastos com defesa, melhorando as contas públicas. No fim dos anos 1990, a aceleração do crescimento econômico, impulsionada pela disseminação da internet e dos computadores pessoais, elevou a arrecadação. Esse período de bonança permitiu que os Estados Unidos registrassem superávits fiscais e reduzissem a dívida em proporção do PIB.
Contudo, as condições atuais são diferentes. O envelhecimento da população, os custos crescentes com saúde e a polarização política dificultam a implementação de medidas de ajuste. Além disso, a economia globalizada e os choques recentes, como a pandemia e tensões geopolíticas, aumentaram a pressão sobre os gastos públicos.
“O problema só está piorando, então não deveríamos estar debatendo se vamos esperar pela catástrofe — deveríamos estar trabalhando nisso agora”, disse Brett Loper, vice-presidente executivo de políticas públicas da Fundação Peterson. “Vai ser muito difícil sair dessa situação.”
Sensibilidade a juros amplia riscos
A vulnerabilidade da dívida norte-americana a variações nas taxas de juros é um fator crítico. Uma alta de 1 ponto percentual nas taxas de todos os prazos dos títulos elevaria a despesa com juros em US$ 310 bilhões em 2027, segundo cálculos da TD Securities. Esse valor representa uma parcela significativa do orçamento federal e reduziria o espaço para investimentos em outras áreas.
Ao mesmo tempo, “com uma dívida tão elevada, os pagamentos líquidos de juros fazem muita diferença — eles vão provocar uma bola de neve do endividamento”, afirmou Goldberg. A lógica é simples: quanto maior a dívida, maior o custo para rolá-la, e maior a necessidade de emitir novos títulos, o que pressiona ainda mais as taxas.
Esse ciclo vicioso pode se intensificar em momentos de estresse no mercado financeiro. Se os investidores exigirem prêmios mais altos para financiar o governo, o custo da dívida sobe rapidamente, agravando o déficit e minando a confiança na sustentabilidade fiscal.
Pressão pública pode forçar mudanças
Apesar do cenário desafiador, há quem veja uma luz no fim do túnel. “O aumento das taxas e dos pagamentos de juros em relação ao PIB pode gerar pressão pública por medidas”, afirmou um analista citado nas claims. Essa pressão, se canalizada adequadamente, poderia levar a reformas estruturais, como ajustes na previdência, revisão de gastos obrigatórios e aumento de receitas.
No entanto, a janela de oportunidade pode ser estreita. Quanto mais tempo o problema for ignorado, maiores serão os custos de ajuste e mais dolorosas as medidas necessárias. A experiência de outros países mostra que crises fiscais costumam eclodir de forma abrupta, sem aviso prévio.
Para os formuladores de políticas, o desafio é equilibrar a necessidade de estímulo econômico no curto prazo com a responsabilidade fiscal de longo prazo. A tarefa é complexa, mas adiá-la só aumentará os riscos para as futuras gerações.
Enquanto isso, os mercados seguem atentos aos sinais de mudança na trajetória da dívida. A cada novo dado fiscal, a reação dos investidores pode ser um termômetro da confiança na capacidade do governo de honrar seus compromissos. A fonte não detalhou projeções além das mencionadas, mas o consenso entre analistas é de que o tema continuará no centro do debate econômico nos próximos anos.
Fonte
- investnews.com.br
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