Um ano depois: os nós financeiros a desatar

Passado um ano desde que a Cosan desistiu da tentativa de adquirir a Vale, a empresa ainda enfrenta o desafio de desfazer as complexas estruturas financeiras montadas para viabilizar a operação.

A aposta malsucedida deixou um legado de acordos com grandes bancos, que agora demandam renegociações e soluções criativas. O processo envolve holdings que concentram participações em empresas do grupo, como a Raízen e a Compass.

Essas estruturas refletem os custos de uma ambição que não se concretizou. Para levantar os recursos necessários à tentativa de compra, a Cosan emitiu ações preferenciais resgatáveis em veículos específicos.

As holdings criadas para a operação

As holdings foram criadas para concentrar ativos e servir como garantia para os financiamentos. A Cosan Dez, por exemplo, abriga participações na Compass e foi usada em operações com o Bradesco BBI.

Já a Cosan Nove, dona de 39% da Raízen, foi a garantia para um empréstimo de R$ 4 bilhões concedido pelo Itaú. Essas estruturas, inicialmente desenhadas para uma transação de sucesso, tornaram-se o centro das atenções no pós-fracasso.

O desmonte desses arranjos não é simples. Envolve contratos com mecanismos específicos e depende do desempenho das empresas subjacentes.

Enquanto a Cosan busca normalizar sua situação financeira, as negociações com os bancos seguem em curso, cada uma com seu grau de complexidade.

O acordo com o Bradesco BBI: um nó em desenlace

Um dos nós a desatar envolve o empréstimo contraído junto ao Bradesco. A Cosan informou que essa operação carregava um custo médio implícito equivalente à taxa CDI mais de 1,1% ao ano até o fim de 2024.

Além disso, o contrato previa mecanismos que ampliavam gradualmente a parcela do lucro destinada aos acionistas preferencialistas, no caso, o Bradesco BBI. Essas cláusulas tornavam a estrutura onerosa com o passar do tempo.

Distribuição de dividendos e redução parcial

Em 2024, a Cosan Dez, holding vinculada ao Bradesco BBI, distribuiu R$ 1,67 bilhão em dividendos. Desse montante, o Bradesco BBI recebeu algo em torno de R$ 380 milhões.

Esse valor contribuiu para reduzir a exposição econômica da estrutura. No entanto, segundo as informações disponíveis, esteve longe de ser suficiente para liquidar integralmente a operação.

Apesar do alívio, a dívida principal permanece em aberto. A receita do banco mitigou parte do risco, mas não resolveu a questão de fundo.

A operação segue ativa, exigindo atenção contínua da Cosan. O próximo passo nessa frente dependerá de novos fluxos de caixa da holding ou de uma renegociação mais ampla dos termos.

O desafio maior: a negociação com o Itaú

Se a negociação com o Bradesco BBI já é complexa, a envolvendo a Cosan Nove e o Itaú é considerada mais intrincada. A garantia do financiamento de R$ 4 bilhões concedido pelo banco ficou concentrada nessa holding.

O problema central aqui é a saúde financeira da própria Raízen. A companhia tem uma dívida líquida de R$ 53,4 bilhões e uma alavancagem de 5,1 vezes o lucro operacional, medida pelo Ebitda.

Com esse nível de endividamento e sem espaço para distribuição de dividendos, a remuneração do Itaú deixou de ocorrer de forma natural. Diferentemente da Cosan Dez, que gerou dividendos, a Cosan Nove não conseguiu prover os recursos esperados ao banco.

A interdependência com a Shell

A discussão envolvendo a Cosan Nove necessariamente passa por decisões societárias dentro da Raízen. Qualquer solução depende do consenso entre a Cosan e sua sócia, a anglo-holandesa Shell.

Há a possibilidade de a Raízen demandar um aumento de capital de grande porte, da ordem de R$ 10 bilhões, para aliviar sua situação financeira. No entanto, qualquer movimento nesse sentido depende da iniciativa da Shell.

Essa interdependência cria uma camada adicional de dificuldade para a Cosan. Resolver a questão com o Itaú não é apenas uma negociação bilateral; é um quebra-cabeça que envolve a estratégia de uma joint venture relevante.

O impasse ilustra como as consequências da aposta na Vale se espalharam por diferentes elos do grupo.

Movimentos recentes da Cosan para reforçar liquidez

Enquanto negocia com os bancos, a Cosan também tem tomado medidas para reforçar sua liquidez e reorganizar seu portfólio. Em meados de dezembro, a empresa levantou R$ 2,5 bilhões por meio de uma operação de empréstimo.

Esse financiamento foi garantido por 10% da Rumo, uma de suas controladas. A manobra demonstra a utilização de outros ativos sólidos do grupo para gerar caixa.

Reorganização da participação na Moove

Paralelamente, a Cosan reorganizou parte de sua participação na Moove, empresa do setor de lubrificantes. Ela transferiu 19,9% dos papéis — avaliados em R$ 1,7 bilhão — para um novo fundo de investimento estruturado com o Citibank.

Essa manobra permite captar recursos sem perder totalmente o controle sobre o ativo. É uma estratégia comum para liberar capital.

Esses movimentos indicam uma postura ativa da empresa em buscar alternativas para equilibrar suas contas. Eles não estão diretamente ligados às negociações com Bradesco e Itaú, mas refletem um esforço broader para fortalecer a saúde financeira após o revés.

A fonte não detalhou se os recursos serão destinados especificamente para quitar as dívidas das holdings. No entanto, o timing sugere uma conexão com o processo de desmonte.

Conclusão: duas frentes de atuação

Assim, a Cosan segue em duas frentes principais:

  • A negociação direta com os credores da aposta fracassada
  • A gestão de seu portfólio para criar flexibilidade financeira

O caminho para desatar todos os nós ainda não está claro. Os passos recentes mostram que a empresa não está parada.

O desfecho dependerá, em grande medida, da evolução das discussões com a Shell na Raízen e da capacidade de geração de caixa das holdings.

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