Um álbum de fotografias pertencente a Karl Höcker, ajudante do comandante do campo de concentração de Auschwitz, revela um contraste perturbador: oficiais nazistas sorridentes em momentos de descontração, enquanto o genocídio ocorria a poucos metros dali. As imagens, que não mostram as atrocidades, inspiraram a peça “Here There Are Blueberries” (“Aqui Tem Mirtilos”), criada por Moisés Kaufman e Amanda Gronich. A montagem, em cartaz nos Estados Unidos desde 2022, chega à Broadway em 2 de novembro para 80 apresentações.
O álbum, hoje preservado pelo United States Holocaust Memorial Museum, documenta o cotidiano de membros da SS e auxiliares administrativas em Solahütte, um local de lazer próximo ao campo. As fotografias, tiradas em julho de 1944, mostram figuras do alto escalão do regime de Adolf Hitler, como o médico Josef Mengele, conhecido como o “Anjo da Morte”; Oswald Pohl e Rudolf Höss, o oficial retratado no filme “Zona de Interesse”. Nenhum dos registros expõe os crimes cometidos, mas a proximidade com Auschwitz-Birkenau torna as cenas ainda mais assustadoras.
O álbum e seu contexto histórico
Auschwitz-Birkenau foi o maior campo de extermínio nazista, onde foram aniquiladas 1,1 milhão de pessoas, entre judeus, homossexuais, presos políticos, deficientes físicos, Testemunhas de Jeová e ciganos. Segundo especialistas, trata-se do local onde ocorreu o maior genocídio documentado da história. As fotografias do álbum de Höcker, porém, não registram esse horror: mostram piqueniques, cantorias e momentos de lazer dos perpetradores.
Uma das imagens mais emblemáticas, datada de 15 de julho de 1944, retrata, da esquerda para a direita, Richard Baer, Josef Mengele e Rudolf Höss em um momento de descontração. Os três nomes do alto escalão nazista estavam diretamente envolvidos na morte de centenas de milhares de pessoas. A legenda oficial da foto, fornecida pelo museu, destaca a ironia cruel da cena.
Outra fotografia mostra oficiais da SS e auxiliares administrativas (SS-Helferinnen) posando descontraídos em Solahütte, enquanto pessoas eram assassinadas em massa no campo vizinho. A ausência de qualquer sinal de sofrimento nas imagens é o que mais choca pesquisadores e o público.
A investigação dos arquivistas
No palco, a peça “Aqui Tem Mirtilos” reconstrói a investigação dos arquivistas do Museu do Holocausto para identificar quem eram os retratados no álbum. O processo de pesquisa, que envolveu análise minuciosa de uniformes, patentes e expressões faciais, revelou a identidade de vários oficiais. A divulgação das imagens também teve um efeito inesperado: levou alemães a reconhecer seus avôs nas fotos e a investigar o passado familiar.
A dramaturgia de Kaufman e Gronich transforma essa busca documental em uma narrativa teatral que questiona a banalidade do mal. A peça não se limita a apresentar as fotografias; ela convida o público a refletir sobre como pessoas comuns puderam participar de um genocídio sem aparente remorso. A montagem tem sido aclamada pela crítica por sua abordagem sensível e rigorosa.
Trajetória de sucesso nos palcos
Em cartaz nos Estados Unidos desde 2022, a peça tem rodado o país com grande repercussão. Em 2024, a montagem entrou para a lista das “dez melhores peças de 2024” segundo o The Wall Street Journal, e foi indicada ao Pulitzer Prize na categoria Drama. Em 2025, chegou aos palcos do McCarter Theatre Center, em Princeton, um dos mais respeitados do país.
Agora, a produção se prepara para a estreia na Broadway, marcada para 2 de novembro, com 80 apresentações programadas. A expectativa é que o espetáculo alcance um público ainda maior e continue provocando debates sobre memória, responsabilidade e a importância de confrontar o passado.
O impacto das imagens
As fotografias do álbum de Höcker são um documento histórico raro, pois mostram o lado humano dos perpetradores do Holocausto. Ao contrário das imagens oficiais de propaganda nazista, que retratavam os campos como locais de trabalho ordeiro, essas fotos revelam a vida privada dos oficiais, com sorrisos genuínos e momentos de alegria. Esse contraste entre a normalidade aparente e o horror real é o cerne da peça.
A divulgação das imagens pelo museu também gerou reações na Alemanha, onde descendentes de nazistas começaram a questionar a história de suas famílias. A peça incorpora esse fenômeno, mostrando como a arte pode servir de catalisador para a reconciliação histórica. A fonte não detalhou quantas famílias foram afetadas, mas o impacto emocional é evidente.
O título “Aqui Tem Mirtilos” faz referência a uma anotação encontrada no álbum, sugerindo que os oficiais colhiam frutas silvestres durante seus momentos de lazer. A trivialidade do registro contrasta com a magnitude do genocídio, reforçando a tese da banalidade do mal, de Hannah Arendt.
Relevância contemporânea
Em um momento de ascensão de discursos de ódio e negação do Holocausto, a peça ganha ainda mais relevância. Ao expor a humanidade dos perpetradores, ela desafia a ideia de que o mal é sempre monstruoso e distante. Pelo contrário, mostra que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando inseridas em sistemas de opressão.
A montagem também levanta questões sobre a responsabilidade individual e coletiva diante de crimes contra a humanidade. Ao identificar os rostos sorridentes, os arquivistas devolvem a individualidade aos perpetradores, impedindo que se escondam atrás da burocracia do extermínio.
A chegada à Broadway amplia o alcance dessa mensagem, levando o debate para um dos maiores palcos do mundo. Com 80 apresentações, a expectativa é que milhares de espectadores sejam confrontados com a pergunta central da peça: como é possível sorrir enquanto o mundo arde?
