O novo cliente das operadoras: máquinas dominam ativações
O cenário das telecomunicações no Brasil passou por uma mudança estrutural nos últimos anos. Dos quase 7 milhões de novas linhas móveis ativadas no país no último ano, 95% não foram contratadas para pessoas físicas – mas para máquinas.
Tratores, medidores de energia, câmeras, postes de iluminação, veículos de passeio, caminhões e sensores de pragas são alguns exemplos. Esse movimento reflete a expansão do mercado de IoT (Internet das Coisas), que já soma 30 milhões de aparelhos ativos no território nacional.
Além disso, esse mercado dobrou de tamanho desde 2021, indicando um crescimento acelerado e consistente.
Gatilho regulatório e demanda por eficiência
O gatilho dessa expansão no Brasil foi regulatório, segundo informações disponíveis. Mudanças nas regras do setor criaram um ambiente mais favorável para a conexão de dispositivos.
Isso permitiu que empresas de diversos segmentos adotassem soluções de conectividade em larga escala. Por outro lado, a demanda por eficiência operacional e monitoramento remoto também impulsionou essa tendência.
Essa transição redefine o papel das operadoras, que agora atendem a um portfólio diversificado de “clientes” não humanos.
Conectividade no campo avança com cobertura ampliada
No agronegócio, a conectividade ganhou escala impressionante. A TIM, por exemplo, já cobriu 26 milhões de hectares com torres de 700 MHz.
Essa frequência alcança entre 15 mil e 40 mil hectares por torre. Essa infraestrutura permite que equipamentos agrícolas operem com comunicação estável em áreas remotas.
Processos como plantio, irrigação e colheita são otimizados. Alexandre Dal Forno, diretor de Engenharia de Produtos B2B da TIM, destacou iniciativas da empresa nesse segmento.
Tratores conectados desde a fábrica
A operadora ajudou a convencer fabricantes como John Deere e New Holland a embutir roteadores em todos os tratores produzidos no Brasil. Como resultado, hoje qualquer trator novo sai de fábrica conectado.
Os equipamentos estão prontos para transmitir dados sobre:
- Desempenho
- Consumo de combustível
- Condições do solo
Essa integração facilita a gestão de frotas e permite ajustes em tempo real, aumentando a produtividade no campo. A adoção de tecnologia no setor agrícola ilustra como a IoT se tornou um pilar estratégico para a competitividade.
Carros saem de fábrica conectados: o caso OnStar
O caso mais maduro por aqui é o da OnStar, da General Motors. O serviço opera no Brasil desde 2013 e hoje carros da Chevrolet saem de fábrica com chip da Claro e receptividade 5G.
São mais de 1 milhão de veículos com o serviço OnStar na América do Sul. O sistema oferece funcionalidades como:
- Assistência em emergências
- Diagnóstico remoto
- Rastreamento
Segundo a montadora, a OnStar tem índices de 90% na recuperação de veículos roubados. Isso demonstra a eficácia prática da conectividade embarcada.
Ecossistema automotivo inteligente
Essa integração entre indústria automotiva e telecomunicações cria um ecossistema onde o carro se torna um dispositivo inteligente. Além de segurança, os chips permitem:
- Atualizações de software
- Monitoramento de desempenho
- Serviços de entretenimento
A experiência do usuário é personalizada. A tendência aponta para uma frota cada vez mais interligada, com dados fluindo entre veículos, fabricantes e operadoras.
Esse modelo redefine a mobilidade e abre novas oportunidades de negócio no setor de transportes.
Empresas diversificam estratégias de atuação
Diante desse novo mercado, empresas adotam diferentes abordagens. A TIM, por exemplo, comprou no fim de 2025 a integradora V8tech.
Essa aquisição amplia sua capacidade de oferecer soluções customizadas. A Arqia, outra empresa do setor, oferece:
- Plataforma de gestão de frotas
- Customização do software embarcado nos chips
- Integração de sistemas de clientes sem escala para desenvolver soluções próprias
Essas aquisições e especializações mostram como as operadoras buscam dominar toda a cadeia de valor da IoT.
Infraestrutura própria: o caso Copel
Em contraste, algumas companhias optam por construir infraestrutura própria. A Copel, por exemplo, construiu infraestrutura de comunicação própria.
A empresa pleiteia junto à Anatel uma frequência dedicada de 450 MHz para distribuidoras de energia. Sergio Milani, superintendente de projetos especiais da Copel, lidera essas iniciativas.
A empresa já operou uma subsidiária de telecom – a Copel Telecom, vendida em 2020. Isso demonstra experiência no setor.
Essa dualidade entre terceirizar e internalizar reflete a complexidade do mercado. Cada empresa avalia custos, controle e agilidade.
O futuro da comunicação máquina a máquina no Brasil
A expansão da IoT no Brasil ainda está em fase inicial, mas os números indicam um caminho irreversível. Com 30 milhões de dispositivos ativos e um crescimento que dobrou desde 2021, o setor deve continuar atraindo investimentos e inovações.
As operadoras, por sua vez, precisam adaptar redes, tarifas e serviços para atender a essa demanda específica. Ela difere significativamente do consumo humano de dados.
Desafios e benefícios da IoT em escala
Os desafios incluem:
- Garantir cobertura em áreas rurais
- Desenvolver soluções de baixo consumo energético para sensores
- Criar padrões de interoperabilidade entre diferentes fabricantes
No entanto, os benefícios justificam os esforços. Entre eles:
- Aumento de produtividade
- Redução de custos operacionais
- Novos modelos de negócio
À medida que mais máquinas se conectam, a comunicação entre dispositivos deve se tornar tão comum quanto a entre pessoas. Setores inteiros da economia são redefinidos.