O cenário de uma usina em Chicago
No bairro operário de Pilsen, em Chicago, uma usina de energia movida a óleo dos anos 1960 ergue-se atrás do Dvorak Park. A usina Fisk, de oito unidades e raramente usada, pertence à NRG Energy e estava programada para se aposentar no próximo ano.
Ela está entre um número crescente das chamadas unidades geradoras “peaker” que estão sendo incentivadas a operar nos EUA. Esse movimento reflete uma mudança na matriz energética do país, impulsionada por novas demandas.
Ter as peakers da Fisk na cidade significa que Chicago não precisa importar eletricidade em caso de emergência, quando fontes externas caem. A NRG possui fontes de geração desde nuclear até eólica e solar, mas a retenção de usinas como a Fisk aponta para um desafio na transição energética.
A situação em Pilsen ilustra um padrão mais amplo que se espalha pela maior rede elétrica do país.
A pressão sobre a rede elétrica PJM
A Fisk faz parte da maior rede elétrica dos EUA, a Interconexão PJM, que se estende por 13 estados e abrange a maior concentração de data centers do mundo.
Preços da energia dispararam
Os preços pagos aos fornecedores de energia na PJM para garantir que as usinas funcionem em momentos de pico de demanda aumentaram em mais de 800% neste verão, em comparação com o ano anterior. Esse aumento significativo reflete a tensão na rede para atender à demanda crescente, especialmente de instalações de alta tecnologia.
Adiamento de aposentadorias
Cerca de 23 usinas de petróleo, gás e carvão no território da PJM foram programadas para se aposentar a partir de 2025 ou pouco depois. Desde janeiro, as empresas de energia dos EUA, o operador da rede e o governo federal adiaram ou cancelaram a aposentadoria de 13 dessas usinas.
Das usinas que evitaram o fechamento, 11 eram de pico, indicando uma tendência clara de manter unidades flexíveis, porém poluentes, em operação.
O adiamento generalizado das desativações
Cerca de 60% das termelétricas a óleo, gás e carvão programadas para serem desativadas na PJM adiaram ou cancelaram esses planos este ano.
Características das usinas de pico
A maioria das usinas que evitaram o desligamento na PJM são unidades de pico, projetadas para funcionar apenas em horários de alta demanda. Muitas das usinas de energia retidas foram construídas como usinas de pico, o que as torna valiosas em momentos de estresse na rede, mas também mais poluentes por unidade de energia gerada.
Esse adiamento em massa desafia os planos de transição para fontes mais limpas e levanta questões sobre os impactos ambientais e sociais. A persistência dessas usinas pode retardar os ganhos em qualidade do ar alcançados com o fechamento de outras unidades mais antigas.
O cenário atual sugere um conflito entre a demanda energética imediata e os objetivos de longo prazo de sustentabilidade.
Impactos ambientais e sociais das usinas de pico
Embora as usinas de pico contribuam com cerca de 3% da energia dos EUA, elas têm a capacidade total de produzir 19%, de acordo com um relatório do U.S. Government Accountability Office.
Emissões poluentes
Essa capacidade ociosa torna-as cruciais para a estabilidade da rede, mas seu uso intermitente vem com custos ambientais elevados. O estudo constatou que as usinas de pico de gás natural emitem 1,6 vez mais dióxido de enxofre para cada unidade de eletricidade produzida, em uma base média, em comparação com as usinas tradicionais.
Desigualdade na exposição à poluição
As cerca de 1.000 usinas “peaker” do país estão desproporcionalmente localizadas em comunidades de baixa renda, exacerbando desigualdades na exposição à poluição.
Após o fechamento da usina de carvão, a poluição despencou, mas não desapareceu, com o dióxido de enxofre variando de cerca de 2 a 25 toneladas por ano no local, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA.
A retenção de usinas como a Fisk pode, portanto, prolongar esses impactos negativos sobre a saúde pública em áreas já vulneráveis.
O futuro da transição energética
O retorno de usinas de energia suja, impulsionado pela demanda de data centers de IA, coloca em xeque o ritmo da transição energética nos Estados Unidos.
Conflito entre inovação e sustentabilidade
Enquanto a capacidade de geração renovável cresce, a necessidade de fontes confiáveis e rápidas durante picos de consumo mantém as usinas de pico em operação. Esse fenômeno destaca a complexidade de equilibrar a inovação tecnológica com a sustentabilidade ambiental e a justiça social.
As decisões tomadas hoje sobre o destino dessas usinas terão repercussões duradouras na matriz energética e na qualidade de vida das comunidades afetadas.
O caso da usina Fisk em Chicago serve como um microcosmo de um desafio nacional, onde a pressão por energia barata e confiável confronta os compromissos com a redução de emissões.
O caminho a seguir exigirá políticas que integrem a expansão de data centers com investimentos em infraestrutura limpa e resiliente. A fonte não detalhou propostas específicas para essa integração.