Elizabeth Holmes troca figurino, mas mantém roteiro
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Nova York — Mesmo encarcerada por orquestrar uma das fraudes mais espetaculares do Vale do Silício, aos 42 anos, Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, não suporta ficar longe dos holofotes. O documentário You Can See Everything (Tudo Pode ser Visto), dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, acompanha os últimos 34 dias da empreendedora em liberdade, antes de se apresentar à prisão. A produção chega ao Brasil em 26 de novembro.

Promessa de transparência em novo documentário

“Você pode ver tudo”, prometeu ela ao roteirista e humorista canadense Nathan Fielder, que, ao lado do americano Lance Oppenheim, dirige o documentário. Famoso pelo sarcasmo e por mesclar realidade e ficção, Nathan passou dias e noites na casa à beira-mar alugada por Elizabeth e o marido, Billy Evans, na Califórnia, onde viviam com os dois filhos pequenos. O primogênito nasceu em 2021, quando a farsa já se tornara pública. A caçula, em 2023, depois da condenação.

Os advogados tentaram em vão adiar a ida para a cadeia, sob o argumento de que a recém-nascida não poderia ser afastada da mãe.

Produzido pela A24, o documentário arrecadou US$ 15,6 milhões no primeiro fim de semana nos Estados Unidos, em outubro — a melhor estreia para uma produção do gênero desde Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, em 2004. Em sessões lotadas, em plenas tardes de dias de semana, em Nova York, os espectadores riam de seus argumentos e das tentativas de se fazer de desentendida — e das reações de Nathan.

Demonstração contestada por ex-funcionário

Em um determinado momento, Elizabeth e Billy, sentados no chão do porão, mostram ao documentarista como funciona o aparelho usado pela Theranos. Aquele que ela dizia ser capaz de realizar 200 exames diagnósticos com poucas gotas de sangue coletadas com apenas uma picada no dedo. A demonstração, porém, foi contestada na imprensa por Tyler Shultz, ex-funcionário e um dos denunciantes do engodo. Segundo ele, o equipamento mostrado no filme não era o mesmo usado nos laboratórios da healthtech.

Tyler é neto de George Shultz, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, morto em 2021. Ao lado de Henry Kissinger e outros nomes influentes da política e do mundo dos negócios, ele integrava o que a revista Fortunechegou a chamar de “o conselho mais ilustre da história corporativa americana”. Investidores de peso, como o magnata da mídia Rupert Murdoch e a família Walton, fundadora do Walmart, também se deixaram seduzir pela tecnologia aparentemente revolucionária.

A empresa captou mais de US$ 700 milhões e chegou a valer cerca de US$ 9 bilhões.

Jornalista mantém ceticismo sobre discurso

A Theranos virou um unicórnio e Elizabeth estampou capas de revista como a mais jovem bilionária a construir a própria fortuna. O jornalista John Carreyrou, hoje no The New York Times, não acredita em nada disso. Depois de anos acompanhando suas palestras e seus depoimentos na Justiça, ele sustenta que cada fala de Elizabeth é calculada. Na época das denúncias, Elizabeth recusou os pedidos de entrevista do jornalista e mobilizou um poderoso advogado para intimidar os envolvidos na apuração.

Também foi pessoalmente à sede do jornal em Manhattan pedir a Murdoch, dono do veículo, que impedisse a publicação. Mesmo tendo investido US$ 125 milhões na startup, o empresário recusou o pedido e preservou a independência editorial do WSJ. Com quase três horas, o documentário acompanha a rotina de Elizabeth, o marido Billy e os dois filhos na casa à beira-mar alugada pelo casal em Del Mar, na Califórnia.

Marido vira protagonista inesperado

É intrigante que o verdadeiro protagonista do documentário seja Billy. Em conversa com Nathan, conta ter conhecido Elizabeth em uma festa, quando a empreendedora já era suspeita de fraude. Na época, ele saía com outras três mulheres. “Entre todas essas opções, você escolheu aquela que estava indo para a cadeia?”, pergunta o diretor, arrancando risadas da plateia.

Condenada por fraude, Elizabeth mantém o discurso de inocência e nunca se retratou com os prejudicados pela Theranos. Nathan Fielder acompanhou os últimos 34 dias de Elizabeth em liberdade. A fundadora da Theranos chegou a ser considerada a bilionária mais jovem do mundo a construir a própria fortuna. O documentário revela que, mesmo diante das câmeras, ela não abandonou o roteiro que a tornou famosa — e infame.

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