A derrota histórica dos republicanos na eleição de meio de mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou em xeque a sólida relação entre o país norte-americano e Israel, que vem sendo alvo de críticas internas nos últimos anos. O resultado eleitoral, que devolveu as maiorias na Câmara e no Senado aos democratas, expôs fissuras em uma aliança considerada estratégica há décadas. A suspensão da ajuda militar a Israel, anunciada no dia da votação, aprofundou o debate sobre o futuro dessa parceria.
Vice-presidente aponta Israel como fator decisivo
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou que a relação do país com Israel foi um dos quatro principais motivos apontados por consultor de confiança que fizeram o partido Republicano perder as maiorias na Câmara e no Senado para os Democratas. A declaração, feita após a derrota, sinaliza um reconhecimento interno do custo político da aliança. A fala de Vance repercutiu tanto nos Estados Unidos quanto em Israel, gerando reações divergentes.
Trump suspende ajuda militar de US$ 3,8 bilhões
No dia da eleição, o presidente Trump anunciou, para surpresa dos aliados em Israel, o fim da ajuda militar ao país estimada em US$ 3,8 bilhões, ao ano, prevista anteriormente para continuar até 2028. A decisão pegou de surpresa o governo israelense, que não esperava uma mudança tão abrupta. O anúncio foi interpretado como uma tentativa de responder às pressões internas nos EUA. A medida, porém, não impediu a derrota republicana.
Especialista vê mudança nas relações bilaterais
O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Bruno Huberman avalia que a decisão de Trump de suspender o repasse é resultado de uma mudança nas relações bilaterais entre Washington e Tel Aviv. “Essa ajuda militar foi muito criticada. Os EUA fornecem ajudar militar para Israel desde o governo de John Kennedy (1961-1963). No primeiro governo Trump (2016-2020), essa ajuda se expandiu de forma muito agressiva”, contou o coordenador do Observatório de Conflitos do Oriente Médio.
A fala do especialista indica que a suspensão não é um ato isolado, mas parte de um processo mais amplo.
Israel é maior receptor de ajuda externa
A organização não governamental Conselho de Relações Exteriores, sediada nos EUA, afirma que Israel é “há muito tempo, o principal beneficiário da ajuda externa dos EUA, incluindo assistência militar”. A instituição calcula que, desde a fundação de Israel, em 1947, o país recebeu dos EUA mais de US$ 300 bilhões até 2025. Desse total, US$ 224 bilhões são de assistência militar, mais que o dobro que o segundo colocado, Afeganistão, com US$ 113 bilhões. Esses números ajudam a dimensionar o peso da aliança e o impacto de sua possível revisão.
Vitória muçulmana no Senado amplia pressão
As eleições nos EUA foram marcadas pela vitória do primeiro mulçumano para o Senado dos EUA, Abdul El-Sayed, pelo estado de Michigan, que fez campanha criticando os gastos do país com ajuda militar a Israel. “Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, afirmou o senador eleito. A vitória de El-Sayed representa uma mudança no cenário político americano, com vozes críticas a Israel ganhando espaço institucional.
Trump tentou conter avanço de El-Sayed
O professor da PUC de Minas Danny Zahreddine, especialista em conflitos no Oriente Médio, avalia que o anúncio de Trump de suspender a ajuda militar à Israel foi uma tentativa de impedir a vitória de El-Sayed para o Senado pelo Michigan. “A relação dos EUA com Israel traz hoje para o público americano um desconforto. Historicamente, o imaginário do mundo americano sempre foi muito favorável a essa relação. Isso começou a se desgastar com o genocídio em Gaza. Essa mudança começa em Gaza”, explicou.
A análise sugere que a medida foi uma manobra eleitoral tardia, sem efeito prático no resultado.
Casa Branca reconhece custo político da aliança
O diretor-executivo da Brazil Office Alliance, organização que conecta pesquisadores brasileiros que atuam nos EUA, Paulo Abraão argumentou à Agência Brasil que a Casa Branca reconheceu o custo político da aliança com Israel. “Eu não diria que isso significa necessariamente o enfraquecimento da aliança estratégica entre os dois países, mas sim uma mudança relevante nas condições políticas de sua sustentação”, comentou. Para o analista, o apoio à Israel deixou de ser um consenso bipartidário nos EUA, de democratas e republicanos, e passou a produzir divisões eleitorais, geracionais e ideológicas.
Essa leitura aponta para uma reconfiguração do debate público sobre a relação bilateral.
Cidade aprova medida contra ocupação e genocídio
Ainda durante a eleição dessa terça, a cidade de Providence, em Rhode Island, aprovou, com cerca de 75% dos votos, uma medida que força a cidade a acabar com os investimentos em “países estrangeiros que conduzem limpeza étnica, apartheid, ocupação militar ilegal ou genocídio”. Apesar de não citar Israel, a iniciativa foi apresentada pela Coalizão Providence Pela Palestina, contando com apoio do prefeito democrata local, David Morales. O resultado reflete um sentimento crescente em algumas comunidades americanas, que pressionam por mudanças na política externa.
Israel reage entre reconhecimento e rejeição
Em resposta ao comentário do vice-presidente DJ Vance, dos EUA, o presidente de Israel, Isaac Herzog, reconheceu que existe um sentimento anti-Israel nos EUA. “Esses são sentimentos que estão no ar em nosso grande amigo e aliado”, acrescentando que Israel sempre “se esforçou ao máximo para ser bipartidário”, buscando apoio tanto dos democratas, quanto dos republicanos, informou o jornal The Times of Israel.
Por outro lado, o representante do país do Oriente Médio na ONU, Danny Danon, rejeitou a análise de Vance que responsabilizou as relações com Israel pela derrota nas eleições de meio de mandato. “É muito fácil culpar Israel por tudo, mas não é esse o caso”, disse, acrescentando que é preciso “prestar atenção” às vozes críticas à Israel dentro dos EUA. O comentário do diplomata foi em entrevista a emissora i24News. As declarações mostram que, em Israel, há leituras distintas sobre o novo cenário político americano.
Fonte
- agenciabrasil.ebc.com.br
- afirma que Israel é (www.cfr.org)
- Rádios (radios.ebc.com.br)
- TV Brasil Elas em Campo: sonhos em jogo (tvbrasil.ebc.com.br)
