O Brasil tem potencial para se destacar na corrida global dos robôs humanoides, mas não necessariamente na fabricação dessas máquinas. A avaliação é de Derek Bittar, co-fundador e general partner da Indicator Capital, que aponta um caminho alternativo: em vez de tentar produzir humanoides de uso geral, o país deveria focar na aplicação prática, integração e operação desses robôs em setores estratégicos. A tese foi apresentada em um artigo recente, no qual o investidor detalha onde o Brasil pode gerar mais valor.

Segundo Bittar, a transformação real virá de quem conseguir colocar robôs para trabalhar durante turnos inteiros no chão de fábrica, envolvendo integração, software de aplicação, dados de operação real e manutenção. Ele ressalta que muitos projetos emperram justamente no hardware, onde cada ciclo de teste custa tempo e dinheiro de verdade. Para o Brasil, a oportunidade estaria em desenvolver robôs e componentes especializados, além de integrar, treinar e operar essas máquinas.

O investidor argumenta que o país tem escala continental e setores de referência mundial que podem servir de plataforma para essa liderança. A lacuna tecnológica, onde a falta de mão de obra, infraestrutura ou segurança torna a automação uma necessidade, seria o terreno fértil para o avanço. A seguir, os principais setores apontados por Bittar como prioritários.

Indústria e logística pedem automação urgente

No setor industrial, o Brasil carrega um atraso de modernização que governo e setor privado já começaram a atacar com investimentos bilionários em digitalização e inovação. Com o chamado custo Brasil, a logística inteligente deixou de ser um diferencial competitivo e virou necessidade. Robôs especializados podem atuar em linhas de produção, movimentação de cargas e inspeções, reduzindo gargalos e aumentando a eficiência.

Bittar destaca que a integração desses robôs exige software de aplicação e dados de operação real, áreas em que empresas brasileiras podem se especializar. Em vez de importar soluções prontas, o país pode desenvolver sistemas adaptados às condições locais, como pisos irregulares, altas temperaturas e layouts fabris antigos. Essa adaptação gera conhecimento valioso e difícil de replicar em outros mercados.

Além disso, a manutenção contínua e o treinamento de operadores criam um ecossistema de serviços que pode empregar mão de obra qualificada. A transição para a automação, portanto, não elimina postos de trabalho, mas os transforma, exigindo novas competências técnicas.

Cidades inteligentes: 87% vivem em áreas urbanas

Com cerca de 87% dos brasileiros vivendo em regiões urbanas, muitas delas com infraestrutura envelhecida, a automação urbana é uma oportunidade clara. O índice de perdas na distribuição de água chega a quase 40%, um problema que robôs de inspeção e sensores conectados poderiam mitigar. Municípios podem pular etapas e adotar sistemas conectados diretamente, sem passar por tecnologias intermediárias.

Robôs humanoides ou especializados podem atuar na manutenção de redes subterrâneas, inspeção de galerias e até no atendimento ao cidadão em serviços públicos. A coleta de dados em tempo real permite uma gestão mais eficiente de recursos, reduzindo desperdícios e melhorando a qualidade de vida. Para Bittar, essa é uma área em que o Brasil pode liderar, pois a demanda é imensa e as soluções ainda são escassas.

A adoção de robôs em cidades inteligentes também abre espaço para parcerias público-privadas, nas quais startups brasileiras podem desenvolver tecnologias específicas para os desafios locais. O investimento inicial pode ser alto, mas o retorno em eficiência e redução de perdas justifica o esforço.

Saúde: SUS atende mais de 200 milhões

O Sistema Único de Saúde (SUS) atende mais de 200 milhões de pessoas, numa população que envelhece rapidamente. Levar cuidado ao interior em escala exige diagnóstico conectado, monitoramento remoto e automação hospitalar. Robôs podem auxiliar em tarefas como desinfecção de ambientes, transporte de medicamentos e até telepresença para consultas a distância.

Bittar ressalta que a automação na saúde não substitui profissionais, mas amplia o alcance dos serviços. Em regiões remotas, onde faltam médicos especialistas, robôs equipados com câmeras e sensores podem permitir que um profissional em um grande centro avalie um paciente a quilômetros de distância. Além disso, o monitoramento remoto de pacientes crônicos reduz internações e melhora a gestão de leitos.

A integração de robôs no SUS enfrenta desafios de custo e treinamento, mas o potencial de impacto social é enorme. Startups brasileiras podem desenvolver soluções de baixo custo adaptadas à realidade do sistema público, criando um mercado próprio e exportável para outros países em desenvolvimento.

Recursos naturais: automação é também segurança

O Brasil tem operações de grande escala em mineração, petróleo e energias renováveis. Seja na mina, na exploração de petróleo em alto-mar ou em parques eólicos, a automação também é segurança: reduz a presença de pessoas em áreas de risco. Robôs especializados já fazem inspeções em mineração e celulose, e começam a ser integrados por empresas brasileiras.

Nesses ambientes hostis, robôs podem realizar tarefas perigosas, como inspeção de dutos, monitoramento de barragens e manutenção de turbinas eólicas. A coleta de dados em tempo real permite prever falhas e evitar acidentes, protegendo vidas e o meio ambiente. Bittar destaca que o capital para essa área ainda está a caminho, mas a demanda é clara.

O desenvolvimento de robôs para recursos naturais exige alta especialização, o que pode ser uma vantagem para o Brasil, que já possui expertise em engenharia de minas e petróleo. Universidades e centros de pesquisa podem colaborar com empresas para criar soluções sob medida, gerando propriedade intelectual valiosa.

O capital: para onde deve ir?

Os robôs já chegaram ao Brasil. Estavam no palco do Physical AI Summit; robôs especializados já fazem inspeções em mineração e celulose e começam a ser integrados por empresas brasileiras. O capital ainda está a caminho. A pergunta é para onde esse capital vai. Se perseguir o próximo fabricante de humanoides de uso geral, o Brasil chega atrasado e caro. Se for para a aplicação, com robôs especializados, integração, visão computacional e dados de operação real, o país pode liderar a etapa que gera mais valor.

Bittar é enfático: o Brasil dificilmente vai vencer a corrida para fabricar humanoides de uso geral. Mas podemos disputar o ouro na corrida para colocá-los para trabalhar. Essa visão pragmática sugere que investidores e empreendedores devem focar em resolver problemas reais com robôs disponíveis, em vez de tentar reinventar a roda. A integração de sistemas, o desenvolvimento de software de aplicação e a análise de dados de operação são áreas onde o país pode se destacar globalmente.

O artigo de Bittar, publicado originalmente no site Startups, serve como um alerta e um guia para o ecossistema de inovação brasileiro. Em vez de perseguir modismos, a aposta é na aplicação concreta, que gera empregos, resolve gargalos e posiciona o Brasil como líder em um mercado emergente.

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