Um projeto de controle da hipertensão arterial implementado em unidades básicas de saúde da zona leste de São Paulo resultou em queda expressiva nas taxas de internação por acidente vascular cerebral (AVC) em dois distritos: Itaquera e Penha. Os dados, referentes ao período entre 2016 e 2021, mostram redução de 54% na média das hospitalizações padronizadas por idade nos dois territórios. A iniciativa, iniciada em julho de 2018, foi ampliada ao longo de 2020 e hoje está presente em todas as 475 Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município.
O levantamento aponta que, em Itaquera, a taxa de internação por AVC caiu 60%, passando de 129,1 para 51,5 hospitalizações por 100 mil habitantes. Na Penha, a redução foi de 48%, de 111,9 para 58,1 internações por 100 mil habitantes. Os números refletem o impacto do diagnóstico precoce e do tratamento contínuo da pressão alta, principal fator de risco para o AVC.
Queda consistente nas taxas de internação
Entre 2016 e 2021, foram registradas 2.204 internações por AVC em Itaquera e 2.287 na Penha. Desse total, cerca de 34% ocorreram entre pacientes com 59 anos ou menos, o que evidencia que o problema não se restringe à população idosa. A padronização por idade permite comparar os distritos de forma justa, eliminando distorções demográficas.
A redução observada em Itaquera foi mais acentuada do que na Penha, possivelmente devido ao início mais precoce do projeto no território. Em julho de 2018, a implementação começou em seis unidades de saúde de Itaquera. Somente ao longo de 2020 a iniciativa foi ampliada para outras 18 unidades, incluindo a Penha. Essa diferença temporal pode explicar parte da variação nos percentuais de queda.
Além das internações, o estudo também identificou uma diminuição nas taxas de mortalidade hospitalar por AVC, calculadas em relação à população. Em Itaquera, a queda foi de 40% entre 2016 e 2021. Na Penha, a redução chegou a 45%, passando de 18,5 para 10,2 mortes por 100 mil habitantes. Esses dados sugerem que, além de prevenir novos casos, o controle da hipertensão pode estar contribuindo para desfechos clínicos mais favoráveis entre os pacientes que sofrem AVC.
Hipertensão: o principal fator de risco
A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco para o AVC. Conforme indicado no estudo, mesmo reduções relativamente pequenas na pressão arterial podem diminuir entre 20% e 40% o risco de sofrer um AVC. Isso reforça a importância do diagnóstico precoce e do tratamento contínuo, que muitas vezes é negligenciado por ser uma condição silenciosa.
No contexto do projeto, as equipes das UBS passaram a adotar protocolos mais rigorosos de acompanhamento de pacientes hipertensos, com consultas regulares, ajuste de medicação e orientação sobre hábitos de vida. A adesão ao tratamento é um desafio conhecido, pois muitos pacientes abandonam a medicação ao se sentirem bem. Estratégias como busca ativa de faltosos e grupos educativos podem ter contribuído para os resultados observados.
A relação entre pressão arterial e AVC é direta: a hipertensão danifica as paredes dos vasos sanguíneos, favorecendo a formação de coágulos ou o rompimento de artérias no cérebro. Por isso, controlar a pressão é a medida mais eficaz para prevenir tanto o AVC isquêmico quanto o hemorrágico. O estudo não detalhou a distribuição dos tipos de AVC entre os pacientes internados.
Expansão do projeto para toda a cidade
A implementação do projeto em São Paulo começou em julho de 2018, em seis unidades de saúde de Itaquera. Ao longo de 2020, foi ampliada para outras 18 unidades, incluindo a Penha. Hoje, a iniciativa está implementada em 100% das 475 Unidades Básicas de Saúde do município, o que representa uma cobertura universal na atenção primária.
Essa expansão sugere que os resultados positivos observados em Itaquera e Penha podem se replicar em outras regiões da capital. No entanto, o estudo não apresentou dados de outros distritos após a ampliação. A fonte não detalhou o custo total do projeto nem os critérios exatos de seleção das primeiras unidades.
A universalização do controle da hipertensão na atenção básica é uma estratégia alinhada com políticas públicas de prevenção de doenças cardiovasculares. A experiência paulistana pode servir de modelo para outros municípios brasileiros, especialmente aqueles com alta carga de AVC e baixa adesão ao tratamento anti-hipertensivo.
Impacto na mortalidade hospitalar
Além da redução nas internações, o estudo apontou queda na mortalidade hospitalar por AVC nos dois distritos. Em Itaquera, a diminuição foi de 40% no período analisado. Na Penha, a redução foi ainda maior: 45%, com a taxa passando de 18,5 para 10,2 mortes por 100 mil habitantes.
Esses números indicam que os pacientes que chegam ao hospital com AVC estão tendo melhores chances de sobrevivência. Isso pode estar relacionado a um diagnóstico mais precoce da hipertensão, que reduz a gravidade dos eventos, ou a melhorias no manejo hospitalar, embora o estudo não tenha detalhado esses fatores.
A mortalidade hospitalar é um indicador importante da qualidade do cuidado, tanto na prevenção quanto no tratamento agudo. A queda observada sugere que o projeto pode ter efeitos que vão além da prevenção primária, influenciando também o prognóstico dos pacientes que sofrem AVC.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar dos resultados promissores, o estudo não abordou a sustentabilidade do projeto a longo prazo nem os custos envolvidos na manutenção das equipes e insumos. A fonte não detalhou se houve aumento no número de profissionais de saúde ou investimento em medicamentos anti-hipertensivos.
Outro ponto não esclarecido é a adesão dos pacientes ao tratamento. Embora as taxas de internação tenham caído, não se sabe qual proporção da população hipertensa dos distritos está com a pressão controlada. Estudos futuros poderiam avaliar esse indicador para entender melhor os mecanismos da redução.
A experiência de Itaquera e Penha demonstra que intervenções focadas na atenção primária podem ter impacto significativo na redução de eventos cerebrovasculares. Com a expansão para todas as UBS da cidade, espera-se que os benefícios se estendam a outros distritos, contribuindo para a diminuição da carga de AVC em São Paulo.
