Adolescentes que passam horas assistindo a vídeos curtos no TikTok e no Instagram podem estar perdendo a noção do tempo e comprometendo sua capacidade de planejar o futuro. É o que indica um estudo conduzido por pesquisadores de várias universidades da China, que envolveu mais de 1.500 estudantes do ensino médio. A pesquisa descobriu que o consumo frequente desse tipo de conteúdo prejudica a chamada “perspectiva temporal futura”.
A perspectiva temporal futura é nossa capacidade de relacionar as atividades que realizamos hoje aos resultados que elas podem produzir mais adiante. Sem essa habilidade, fica mais difícil adiar recompensas imediatas em favor de objetivos de longo prazo, como estudar para uma prova ou desenvolver uma carreira.
O que diz o estudo chinês
Os pesquisadores chineses constataram que a perspectiva temporal futura era prejudicada pelo consumo frequente de vídeos curtos. Em outras palavras, quanto mais tempo os jovens passavam rolando o feed, menor era sua capacidade de conectar ações presentes a consequências futuras. Os autores do estudo não responderam aos pedidos de comentário feitos pela imprensa.
Mas os resultados não foram apenas negativos. “Uma das novas descobertas deste estudo é que a capacidade de superar dificuldades acadêmicas melhora quando existe uma perspectiva clara de futuro”, afirma Vera Feuer, diretora clínica do Child Mind Institute, organização que oferece tratamento de saúde mental. Feuer não participou da pesquisa chinesa, mas comenta os achados com base em sua experiência clínica.
Vídeo: YouTube | Fonte: investnews.com.br
Por que adolescentes são mais vulneráveis
Os efeitos sobre o cérebro também se aplicam aos adultos, mas são mais acentuados entre adolescentes, afirma Feuer. Isso ocorre porque o córtex pré-frontal, região responsável pelo planejamento e controle de impulsos, ainda não está totalmente desenvolvido nessa faixa etária. O consenso científico é que essa região do cérebro só atinge seu pleno desenvolvimento por volta dos 25 anos.
“Sabemos que os jovens têm dificuldade com a paciência, em tolerar frustrações e em adiar recompensas. Eles têm mais dificuldade para lidar com problemas e superá-los”, afirma Feuer. Essa imaturidade neurológica torna os adolescentes particularmente suscetíveis aos efeitos dos vídeos curtos, que oferecem gratificação instantânea e constante.
Vício ou sintoma de procrastinação?
Os vídeos podem ser menos uma causa da procrastinação e mais um sintoma dela. Ajudar crianças e adolescentes a estabelecer metas ambiciosas é uma maneira de relacionar os estudos ao futuro e reduzir a prioridade dada às recompensas imediatas proporcionadas pelos vídeos. Em outras palavras, quando o jovem tem clareza sobre onde quer chegar, fica mais fácil resistir à tentação de rolar o feed.
“Cultivar a perspectiva temporal futura dos adolescentes é, portanto, fundamental para combater os efeitos prejudiciais do vício em vídeos curtos e fortalecer sua resiliência acadêmica”, escreveram os autores do estudo. A frase resume a principal recomendação prática da pesquisa: em vez de simplesmente proibir, é preciso ajudar os jovens a enxergar valor no futuro.
Estratégias práticas para os pais
Diante desse cenário, especialistas sugerem algumas medidas concretas para reduzir o impacto dos vídeos curtos na vida dos adolescentes. Uma delas é conversar sobre quando os vídeos são permitidos. Se os filhos realmente quiserem assistir a esses vídeos, estabeleça horários do dia ou momentos da semana em que isso será permitido e explique por que essas restrições estão sendo adotadas.
Outra recomendação é silenciar o celular durante os estudos. Peça aos filhos que coloquem o celular no modo Foco enquanto fazem a lição de casa, para que não recebam mensagens de texto nem notificações das redes sociais. Essa simples mudança pode reduzir significativamente as interrupções e melhorar a concentração.
Por fim, tire os celulares do quarto. As crianças não deveriam usar o celular enquanto fazem a lição de casa — embora possam argumentar que precisam dele para usar a calculadora ou fazer pesquisas. É ainda mais importante manter os celulares fora do quarto à noite, para garantir uma boa noite de sono. O descanso adequado é essencial para o desenvolvimento cerebral e para a consolidação da memória.
Fonte
- investnews.com.br
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