Quase sete meses após deixar o Chapter 11, a Azul está recorrendo a uma linha do BNDES para reforçar seu caixa e seguir com o plano de reduzir a alavancagem financeira para abaixo de 1,5 vez até o fim de 2029. A companhia busca R$ 2,66 bilhões junto ao banco de fomento, em um movimento que visa fortalecer sua posição financeira após um período de reestruturação.
A operação, anunciada recentemente, já conta com um desembolso parcial. Segundo a empresa, R$ 1,3 bilhão já foram liberados, e o restante está previsto para o quarto trimestre deste ano. Parte dos recursos será direcionada para a gestão de passivos, incluindo o pré-pagamento de R$ 400 milhões em dívidas de custo elevado.
O financiamento utiliza recursos do FNAC (Fundo Nacional de Aviação Civil), criado em 2011 para fomentar o setor de aviação civil. O fundo, que recentemente se tornou uma fonte de crédito para as empresas aéreas, é a origem dos valores que a Azul está captando. A companhia não detalhou as condições específicas do contrato, como prazos e taxas de juros.
Recursos do FNAC impulsionam nova captação
O FNAC foi estabelecido com o objetivo de desenvolver a infraestrutura aeroportuária e a aviação civil no Brasil. Nos últimos anos, porém, passou a ser utilizado também como instrumento de apoio financeiro às companhias aéreas, especialmente em momentos de crise. No caso da Azul, o acesso a essa linha de crédito ocorre em um contexto de recuperação pós-Chapter 11.
Do total de R$ 2,66 bilhões, a parcela já liberada de R$ 1,3 bilhão permitirá à empresa iniciar imediatamente a reestruturação de parte de suas obrigações. O pré-pagamento de R$ 400 milhões em dívidas de custo elevado é uma das prioridades declaradas, o que pode reduzir as despesas financeiras nos próximos trimestres. O restante do financiamento, previsto para o quarto trimestre, deverá complementar o reforço de caixa.
A companhia não especificou quais dívidas serão pré-pagas, mas indicou que a gestão de passivos é um componente central da estratégia. A redução da alavancagem para abaixo de 1,5 vez até 2029 é uma meta de longo prazo que depende, em parte, da melhora do Ebitda e da redução do endividamento bruto.
Reestruturação recente reduziu dívida em US$ 2,5 bi
A Azul deixou o Chapter 11 em fevereiro, após uma negociação que envolveu credores, acionistas e arrendadores de aeronaves. O processo resultou na conversão de parte da dívida em participação acionária, na entrada de novos recursos e na renegociação de obrigações. Com a conclusão da operação, a companhia informou uma redução de aproximadamente US$ 2,5 bilhões em dívidas e obrigações de arrendamento de aeronaves.
Os números do balanço refletem essa transformação. A dívida de empréstimos e financiamentos caiu de R$ 23,1 bilhões no fim de 2025 para R$ 9,9 bilhões em 30 de junho. A queda expressiva aliviou a pressão sobre o caixa, mas a empresa ainda enfrenta desafios operacionais e de rentabilidade, como evidenciado pelos resultados do segundo trimestre.
Apesar da melhora no perfil da dívida, a Azul registrou prejuízo de R$ 1 bilhão no segundo trimestre, revertendo o lucro do mesmo período do ano anterior. A receita, por outro lado, atingiu um recorde de R$ 5 bilhões, mas o Ebitda ajustado caiu 55,4%, para R$ 510,1 milhões. Esses números mostram que a companhia ainda precisa equilibrar crescimento e eficiência operacional.
CEO projeta 2026 como ano de transição
Em nota publicada junto com o balanço, o CEO da Azul, John Rodgerson, afirmou que o segundo trimestre foi afetado por fatores temporários, como a Copa do Mundo. Ele destacou que 2026 será um “ano de transição” e acredita que a companhia está numa posição saudável e financeiramente robusta. A declaração busca transmitir confiança ao mercado, mesmo diante do prejuízo trimestral.
As ações da Azul reagiram positivamente ao anúncio do financiamento. No pregão de ontem, os papéis fecharam com alta de 1,71%, a R$ 17,80. O movimento sugere que os investidores veem com bons olhos o acesso ao crédito do BNDES e a estratégia de redução de alavancagem, embora a empresa ainda enfrente um cenário de custos elevados e demanda variável.
O CEO não detalhou quais medidas adicionais serão tomadas para atingir a meta de alavancagem, mas o financiamento do BNDES é um passo concreto nessa direção. A gestão de passivos, com o pré-pagamento de dívidas caras, deve contribuir para a melhora gradual dos indicadores financeiros.
Impactos no caixa e na estratégia financeira
O reforço de caixa proporcionado pelo financiamento do BNDES ocorre em um momento em que a Azul busca consolidar sua recuperação. A injeção de R$ 2,66 bilhões, somada à redução de dívidas já realizada, pode dar à empresa maior flexibilidade para enfrentar oscilações de demanda e custos operacionais. No entanto, o prejuízo do segundo trimestre indica que ainda há desafios pela frente.
A queda de 55,4% no Ebitda ajustado, para R$ 510,1 milhões, reflete pressões sobre a rentabilidade, possivelmente relacionadas a fatores como o aumento de custos com combustível e a sazonalidade da demanda. A Copa do Mundo, citada pelo CEO como fator temporário, pode ter afetado o comportamento dos viajantes, mas a empresa não forneceu detalhes adicionais sobre esse impacto.
Com a entrada dos recursos do FNAC, a Azul espera reduzir o custo de sua dívida e alongar o perfil de vencimentos. O pré-pagamento de R$ 400 milhões em dívidas de custo elevado é uma medida imediata que pode gerar economia de juros já nos próximos trimestres. A companhia não informou se pretende utilizar o restante do financiamento para novos investimentos ou apenas para capital de giro.
Perspectivas para a redução da alavancagem
A meta de reduzir a alavancagem financeira para abaixo de 1,5 vez até 2029 é ambiciosa e depende de uma combinação de fatores. Além do financiamento do BNDES, a Azul precisará melhorar seu Ebitda de forma consistente e manter a disciplina na gestão de custos. A reestruturação do Chapter 11 já proporcionou uma base mais sólida, mas os resultados trimestrais mostram que a recuperação ainda está em curso.
O mercado acompanha de perto a evolução dos indicadores da companhia. A alta de 1,71% nas ações após o anúncio do financiamento sugere uma reação positiva, mas a sustentação desse movimento dependerá da execução da estratégia. A Azul não divulgou projeções detalhadas para os próximos trimestres, limitando-se a afirmar que 2026 será um ano de transição.
Em resumo, o financiamento de R$ 2,66 bilhões do BNDES representa um reforço importante para o caixa da Azul e um passo na direção da redução da alavancagem. A companhia, que já reduziu significativamente sua dívida após o Chapter 11, agora busca consolidar sua posição financeira em um ambiente ainda desafiador para o setor aéreo.
