Os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, assumiram na sexta-feira o controlo do estreito de Bab el-Mandeb, depois de capturarem uma ilha situada no meio desta via marítima crucial do Mar Vermelho, disseram um responsável governamental local e testemunhas oculares. A tomada da ilha de Mayyun, localizada no centro do estreito, representa uma escalada significativa no conflito iemenita e coloca em risco uma das rotas comerciais mais estratégicas do planeta.
“Os Huthis concluíram a tomada da zona de Bab el-Mandeb e da ilha de Mayyun, que se situa no meio do estreito”, acrescentou, falando sob condição de anonimato. Uma testemunha afirmou que homens armados “se estão a posicionar ao longo da costa de Bab el-Mandeb e circulam em viaturas militares”. A fonte não detalhou o número exato de combatentes envolvidos na operação.
Domínio militar e imagens de celebração
Imagens publicadas na internet pareciam mostrar combatentes huthis a festejar em Mokha e a apoderarem-se de um volume significativo de armas e material deixado para trás pelas forças governamentais. A Euronews não conseguiu verificar de forma independente a autenticidade dessas imagens. A localidade de Mokha, historicamente conhecida pelo comércio de café, tornou-se palco simbólico da vitória rebelde.
O controlo do estreito pelos houthis ocorre num contexto de elevada tensão regional. Os estreitos de Hormuz e de Bab el-Mandeb são responsáveis por mais de um quarto do comércio marítimo de crude e de produtos petrolíferos. Só pelo Mar Vermelho passa quase um terço do tráfego mundial de contentores. A interrupção ou ameaça a essa rota pode ter impactos imediatos nos preços globais de energia e bens de consumo.
Consultas a Teerã e pressão econômica
Segundo relatos, os Huthis terão ainda consultado Teerão sobre a imposição, durante o verão, de uma taxa de passagem segura no estreito, num aparente plano para agravar ainda mais a pressão sobre as economias mundiais. A medida, se concretizada, representaria uma nova fonte de receita para o grupo e um instrumento de coerção geopolítica. O governo iemenita reconhecido internacionalmente tem alertado repetidamente para os planos dos Huthis de tomarem o controlo desta via marítima, cujo nome em árabe significa “Porta das Lágrimas”.
Formalmente conhecidos como Ansar Allah, os Huthis chegaram ao poder no final de 2014, depois de tomarem de assalto Sanaá e ocuparem o palácio presidencial e posições militares chave, forçando o governo do Iémen ao exílio. Desde então, o grupo consolidou sua presença no norte do país e expandiu sua influência militar com apoio iraniano.
Reação saudita e escalada regional
O grupo desencadeou o reatamento das hostilidades na guerra civil do Iémen em julho, ao permitir a aterragem de um avião iraniano em desafio ao controlo saudita do espaço aéreo iemenita. Riade retaliou bombardeando o aeroporto, o que levou os Huthis a declararem em julho um bloqueio ao reino, dirigido ao seu comércio de petróleo. A Arábia Saudita, que no início desta semana afirmou ter sempre oferecido “oportunidades de negociação”, reiterou também que tem o direito de se defender.
Os ataques dos Huthis contra infraestruturas petrolíferas e navios-cisterna sauditas contribuíram ainda para a subida dos preços do petróleo, que ultrapassaram os 100 dólares por barril na quinta-feira. A escalada nos preços reflete o nervosismo dos mercados diante da possibilidade de interrupções no fornecimento.
Alianças defensivas e posição do Paquistão
No mês passado, a Arábia Saudita assinou em Meca um acordo de defesa mútua de estilo NATO com a Turquia e o Paquistão, potência nuclear, mas é pouco provável que qualquer um dos dois países se envolva. Na terça-feira, o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, afirmou que o Paquistão irá “honrar” o pacto “caso seja necessário”. Um dia depois, o Ministério dos Negócios Estrangeiros paquistanês declarou que o acordo de Meca é uma “aliança defensiva centrada na dissuasão”.
“Não há nada desse tipo em discussão neste momento. Quando chegar a altura, agiremos ao abrigo do acordo”, disse o porta-voz Sajjad Haider Khan aos jornalistas no habitual ponto de imprensa semanal. No entanto, Washington mostra-se, segundo relatos, relutante em voltar a intervir neste momento, uma vez que continua atolado na sua própria guerra com o Irão desde fevereiro.
Reação iraniana e presença de conselheiros
Teerão pronunciou-se na sexta-feira, apelando ao fim do bloqueio da Arábia Saudita ao Iémen e à retoma imediata das negociações, na sua primeira declaração pública desde a ofensiva dos Huthis no Mar Vermelho. Num comunicado divulgado pela agência oficial IRNA, o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano afirmou que a soberania do Iémen deve ser respeitada e que os problemas do país não podem ser resolvidos através de um bloqueio ou de alianças militares.
Entretanto, algumas informações dão conta de que o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, a força paramilitar de elite do Irão, terá destacado dezenas de conselheiros para apoiar os Huthis nas suas operações. A Euronews não conseguiu, para já, verificar de forma independente estas alegações. A presença de conselheiros iranianos, se confirmada, aprofundaria o envolvimento direto de Teerã no conflito iemenita.
