Rembrandt gravuras: como o mestre viralizou arte há 400 anos
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Quatro séculos antes da internet, o artista holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn já dominava uma forma de fazer sua arte circular pelo mundo: as gravuras. Em cartaz na Caixa Cultural, em São Paulo, a exposição “Rembrandt — O Mestre da Luz e da Sombra” reúne 69 gravuras que atravessam quase quatro décadas da produção do mestre do Barroco. A mostra revela como o pintor transformou a técnica em laboratório artístico e meio de circulação de sua obra pela Europa.

Gravuras como tecnologia de comunicação

Em uma época em que a pintura permanecia restrita a casas, igrejas e coleções, as gravuras de Rembrandt viajavam, atravessavam fronteiras e ajudavam a construir sua reputação internacional.

“Uma pintura permanece em uma casa, coleção ou igreja; uma gravura circula”, ressalta Baroni. “As gravuras eram uma das grandes tecnologias de comunicação da Europa moderna. Elas construíam reputações para além das fronteiras muito antes de existirem a fotografia ou a internet.”

O artista produziu mais de trezentas gravuras ao longo da carreira, muitas dedicadas a personagens e cenas do cotidiano.

Pequenas obras, grande complexidade

Muitas das obras têm dimensões próximas às de uma figurinha de álbum da Copa do Mundo, mas concentram cenas de enorme complexidade. O que impressiona é a quantidade de informação que o artista consegue concentrar em um espaço tão pequeno.

Em “A Descida da Cruz”, de 1633, há dezenas de personagens, diferentes planos, diagonais e feixes de luz que compõem a cena, criando profundidade e conduzindo o olhar. Tudo é construído com um domínio preciso da perspectiva e um interessante jogo de claro-escuro.

O laboratório de experimentação do artista

Para Baroni, cada placa de impressão era um “laboratório”, no qual o artista podia experimentar diferentes soluções e registrar cada etapa em uma nova impressão — algo difícil de imaginar na pintura.

“A gravura oferece a ele algo que a pintura não pode oferecer exatamente da mesma maneira, a sequência”, afirma. “Podemos, assim, acompanhar o pensamento se transformando em imagem quase passo a passo.”

Ao retrabalhar as matrizes, Rembrandt alterava luz, sombras, figuras e composições, criando diferentes estados de uma mesma imagem.

Estados que atraíam colecionadores

Essa possibilidade de transformar uma mesma imagem ao longo do tempo também tinha efeitos sobre o mercado. Diferentemente das gravuras contemporâneas, produzidas em edições fechadas e numeradas, as de Rembrandt podiam ganhar novos estados à medida que o artista retrabalhava a matriz.

Cada intervenção podia resultar em uma nova impressão, diferente da anterior. Para os colecionadores, essas diferenças tinham um atrativo especial. Reunir os diversos estados de uma mesma imagem e completar séries tornava-se parte do prazer de colecionar.

Domínio técnico e temático

Com água-forte, ponta-seca e buril, o artista explorou episódios bíblicos, paisagens, retratos e personagens do cotidiano.

Em “A Adoração dos Pastores: cena noturna”, de 1652, Rembrandt combina água-forte e ponta-seca para construir sombras profundas e fortes contrastes de luz. Já em “A Adoração dos Pastores: com a Lâmpada”, de 1654, o artista retoma a cena da Natividade apenas em água-forte e faz da lâmpada o foco de luz da composição.

Nas duas obras, o artista trabalha o mesmo tema, mas encontra soluções diferentes para a cena.

Trajetória e legado

Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 15 de julho de 1606, em Leiden, e mudou-se para Amsterdã aos 25 anos. Sua trajetória se desenrolou no chamado Século de Ouro dos Países Baixos, período de expansão comercial, científica e cultural da região.

Famoso pelas pinturas de superfície rugosa e pelas cenas de forte teatralidade, Rembrandt também encontrou na gravura um espaço para experimentação. A mostra traz uma grande série de cenas bíblicas, além de imagens do cotidiano: paisagens, retratos de filósofos e personagens ligados ao trabalho e à vida urbana.

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