O volume de conteúdo sobre inteligência artificial nunca foi tão grande. Tutoriais, threads e vídeos de dez minutos explicando MCP se multiplicam, mas, para Leandro Herrera, fundador e CEO da Tera, essa abundância esconde um problema: informação não é sinônimo de aprendizado. A declaração foi dada em conversa com Gustavo Brigatto, fundador do Startups, no novo episódio do podcast MVP.

Herrera propõe um critério simples para distinguir os dois conceitos. “Eu assisti o tutorial, apliquei e, se eu voltar dali a uma semana, consigo reproduzir da mesma forma? Então isso sim, você aprendeu”, afirma. “Só assistir, você se informou. São coisas diferentes.”

Informação abundante, aprendizado raro

A distinção entre se informar e aprender é central na tese da Tera para a era da IA. O executivo observa que a facilidade de acesso a conteúdos pode criar uma falsa sensação de domínio. Assistir a um vídeo ou ler um tutorial não garante a capacidade de aplicar o conhecimento de forma autônoma e duradoura.

Para Herrera, o verdadeiro aprendizado exige prática e retenção. A capacidade de reproduzir uma tarefa após um intervalo de tempo é o teste definitivo. Sem isso, o profissional apenas acumulou informações, sem transformá-las em habilidade.

Essa visão orienta a estratégia da edtech, que busca oferecer experiências que vão além do consumo passivo de conteúdo. A empresa concentra esforços em duas frentes: imersões de entrada e assinaturas.

Vídeo: YouTube | Fonte: startups.com.br

Duas frentes: analgésico e vitamina

As imersões de entrada, com preços entre R$ 100 e R$ 150, funcionam como o “analgésico” para quem precisa dar o primeiro passo no universo da IA. São cursos rápidos e acessíveis, desenhados para reduzir a ansiedade inicial e oferecer uma introdução prática.

Já a assinatura é a “vitamina”, voltada para quem já entendeu que precisa se aprofundar. Esse modelo contínuo permite um desenvolvimento mais consistente, com acesso a conteúdos e ferramentas que acompanham a evolução do profissional.

A metáfora médica ilustra a abordagem da Tera: aliviar a dor imediata e, ao mesmo tempo, fortalecer o organismo para o longo prazo. A transição entre as duas ofertas reflete o amadurecimento do aluno.

B2B consultivo puxa o crescimento

No segmento corporativo, o trabalho da Tera tornou-se consultivo. A empresa desenha programas sob medida para organizações de mil a quatro mil colaboradores, adaptando o conteúdo às necessidades específicas de cada cliente.

Essa frente é a que puxa o crescimento da edtech. Com 55 pessoas e caixa positivo, a Tera projeta R$ 40 milhões em vendas neste ano, o que representa uma alta de 70% em relação ao período anterior.

O foco em B2B reflete uma demanda crescente por capacitação em IA dentro das empresas. A personalização dos programas permite atender desde times técnicos até lideranças, criando uma trilha de aprendizado alinhada aos objetivos do negócio.

O profissional de alto impacto

Herrera também destaca o papel do que chama de “contribuidor individual de alto impacto”. Esse profissional não lidera equipes, mas chega com um sistema de agentes próprio e é remunerado como gestor.

“É talvez o momento mais assimétrico a favor do profissional para negociar o que ele quiser”, afirma o CEO. A capacidade de criar e operar agentes de IA torna esse perfil extremamente valioso, mesmo sem cargo de chefia.

No entanto, há um contraponto: a shadow AI. Muitos colaboradores utilizam ferramentas de IA sem o conhecimento da empresa, aumentando sua produtividade individual, mas sem que a organização capture esse valor, pois o agente não se torna um ativo compartilhado.

Shadow AI: produtividade invisível

A shadow AI representa um desafio para as empresas. Quando um funcionário usa IA por conta própria, ele pode se tornar mais eficiente, mas esse ganho não é institucionalizado. O conhecimento e as ferramentas ficam restritos ao indivíduo.

Herrera alerta que, sem uma estratégia corporativa, as empresas perdem a oportunidade de transformar esses agentes em ativos coletivos. A Tera, portanto, busca conscientizar as organizações sobre a importância de integrar a IA de forma estruturada.

A conversa no podcast MVP também abordou como a própria Tera opera internamente. Herrera conta que comanda a empresa direto do terminal, utilizando ferramentas de linha de comando para gerenciar processos.

Operação direto do terminal

O CEO relata um caso emblemático: o time da Tera migrou 41 mil linhas de código em seis horas, um trabalho que, segundo ele, levaria um ano pelos métodos tradicionais. Esse exemplo ilustra o potencial da IA para acelerar tarefas complexas.

A operação direto do terminal demonstra uma cultura interna de experimentação e eficiência. A empresa aplica em si mesma os princípios que ensina, validando na prática a tese de que a IA pode transformar a produtividade.

A história da migração de código serve como prova de conceito para clientes e alunos. Mostra que, com as ferramentas certas e o conhecimento adequado, é possível alcançar resultados extraordinários em prazos curtos.

O futuro do aprendizado em IA

A tese da Tera para a era da IA vai além da oferta de cursos. Trata-se de uma mudança de mentalidade: entender que a informação está disponível, mas o aprendizado exige esforço deliberado e aplicação prática.

Com uma abordagem que combina imersões acessíveis, assinaturas aprofundadas e consultoria B2B, a edtech se posiciona como ponte entre o conhecimento disperso e a competência real. O crescimento projetado de 70% indica que o mercado reconhece essa necessidade.

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