Recuperação judicial da Aeris negocia dívida com 90% de desconto
Crédito: investnews.com.br
Crédito: <a href="https://investnews.com.br/investimentos/aeris-mais-uma-empresa-protecao/" rel="nofollow noopener noreferrer" target="_blank">investnews.com.br</a>

Recuperação judicial da Aeris negocia dívida com 90% de desconto

A Aeris Energy, fabricante de pás eólicas, pediu na Justiça uma tutela cautelar para se proteger de credores. A medida suspende cobranças de dívidas e execuções judiciais por até 60 dias, enquanto a companhia informou ter iniciado negociações com seus principais credores.

A empresa é a mais nova a adotar esse tipo de blindagem, após varejistas como Casas Bahia e Marabraz terem feito o mesmo.

Proteção cautelar antes de uma RJ

Esse pedido de proteção costuma anteceder processos de recuperação judicial (RJ) ou extrajudicial (RE). Se houver uma RJ ou RE, a companhia ganha mais tempo para negociar com os credores, com prazo que sobe para até 180 dias — os dois meses iniciais da tutela já incluídos.

Nos últimos dias, Casas Bahia e Marabraz formalizaram pedidos de recuperação judicial depois de recorrerem ao mesmo instrumento para se blindarem de cobranças antecipadas.

No caso da Aeris, a negociação ocorre em meio a um cenário de forte estresse financeiro. A tutela cautelar foi solicitada na última quinta-feira (21), conforme a empresa comunicou. Com a medida, a companhia ganha mais tempo para tentar um acordo com credores.

Debêntures com desconto de 88,5%

No mercado secundário, as debêntures da companhia são negociadas com valor de 11,54% do valor de face, ou seja, com desconto de 88,5%. Há dois anos, os mesmos papéis tinham desconto de apenas 14%.

O levantamento da plataforma de crédito privado Vitrify mostra uma dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão com investidores de duas séries de debêntures.

A exposição de pessoas físicas é baixa: apenas 0,8% do crédito total. Quase a metade das debêntures, 48%, está nas mãos de fundos de investimento, com oito casas com posições nos papéis. Apesar da concentração, a desvalorização recente sinaliza risco até para investidores institucionais.

Crise do setor eólico e concorrência

A crise da Aeris se consolidou por uma combinação de fatores:

  • Forte redução dos projetos de geração eólica nos últimos dois anos;
  • Alto nível de endividamento;
  • Elevação do custo financeiro em meio aos juros historicamente altos;
  • Concorrência da geração solar distribuída.

A companhia já foi a maior fabricante nacional de pás para energia eólica seis anos atrás, quando fez a abertura de capital (IPO).

Esse conjunto de fatores levou a uma redução no investimento em geração de eletricidade pelo vento. O montante caiu quase 70% entre 2023 e 2026, passando de R$ 35 bilhões há três anos para cerca de R$ 10 bilhões neste ano.

Repactuação e rebaixamento de rating

Repactuação da dívida

Em comunicado, a Aeris afirmou que a reestruturação não deve afetar operações, fornecedores ou clientes. O pedido de proteção não é o primeiro sinal de estresse: a companhia passou por uma repactuação completa da dívida em 2025.

As assembleias de debenturistas não atingiram quórum em dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. Uma terceira convocação, em 28 de março do ano passado, aprovou a extensão do vencimento das duas emissões para 2030.

Também foram aprovados:

  • Novo cronograma de amortização trimestral a partir de dezembro de 2027;
  • Elevação dos juros de CDI + 2% para CDI + 3% ao ano;
  • Retirada do gatilho de vencimento antecipado ligado a garantias financeiras.

Em maio de 2025, a empresa fechou instrumentos de crédito com Banco do Brasil, BV e Santander para reperfilar cerca de 90% do endividamento total, nas mesmas condições de prazo e taxa.

Rebaixamento de rating

Mesmo assim, a agência de rating Fitch rebaixou a Aeris em maio de 2025 para RD(bra) — default restrito —, por classificar a troca de dívida como uma reestruturação em condições de estresse.

Nenhuma das debêntures fez pagamentos desde julho de 2024. Diante dos atrasos, o saldo devedor tem aumentado: nos últimos dois anos, além da correção pelas taxas, houve um crescimento real de mais de 15% da dívida em relação ao valor emitido originalmente.

Próximos passos e risco aos investidores

Daqui para a frente, se a Aeris não conseguir chegar a uma reestruturação amigável das dívidas, o caminho deve seguir no rumo de uma recuperação judicial ou extrajudicial.

Por enquanto, as debêntures podem ser negociadas livremente no mercado secundário. Porém, se houver uma RJ, os detentores dos títulos entram para a lista de credores e os papéis deixam de ser negociados.

Em uma RE, a negociação no secundário é mantida. Mas, como a experiência mostra, os descontos reduzem o valor dos títulos a uma pequena fração do original. No caso da Aeris, se cair abaixo da média atual de 11% do valor de face, basicamente sela a perda do investimento.

📄 Documentos Relacionados

Fonte

By

0 0 votos
Classificação
guest

Resolva a soma:
56 + = 61


0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários